Inumanidade futura: uma visão do presente

porJeronimo Molina

Inumanidade futura: uma visão do presente

Ao pensarmos em futuro sempre acreditamos que estamos nos relacionando com 50, quem sabe 100 anos. Pouco imaginamos que hoje podemos estar vivendo o futuro descrito em história sci-fi dos anos 1980. Dispomos de tecnologia abundante, podemos falar com quem quiser em qualquer idioma, comemos coisas estranhas a nossos antepassados mais recentes, andamos em veículos mais rápidos que nossos avós. Esse é o futuro que antigamente era pensado.

Hoje somos o futuro. E como uma visão mal acabada de um filme semelhante a Blade Runner vivemos no futuro. Cada vez mais estamos propensos aos efeitos das mudanças climáticas, chuvas torrenciais, tornados. Nosso conceito de sociedade contemporânea é tão liquefato onde as relações de esvaem sob a areia movediça na mesma velocidade que se constroem. Estamos com menos tempo fazendo muito menos, estamos com menos energia trabalhando menos, estamos mais cansados dormindo menos. Só que tudo permeado com conforto inigualável.

Tornamos nossas vidas para dentro de pequenas caixas, conversamos com essas caixas e dialogamos com o vazio. Não olhamos mais no olho de nosso interlocutor, somente ficamos olhando para uma tela verde com letras escritas nela. Pior ainda é conversar com alguém que jamais existiu em “carne e osso”, nos respondendo como se fosse nosso melhor amigo. Estamos a espera do próximo clique, do próximo curtir, do próximo bip no smartphone. Cartas são coisas antepassadas como nossos pais, e-mail também é obsoleto, quem sabe até uma SMS é antigo.

Vivemos a era dos bits em alta densidade e velocidade, sem nos preocupar com o alheio a nosso redor, olhando para as pequenas telas brilhantes. Crianças, adultos, idosos. Todos. Compactuamos com a frase dita em um mural de outras frases sem sentido, mas que para nossa contemporaneidade dizem muito. Imaginamos no user do outro lado da tela de acordo com seu rosto em foto de perfil. Talvez tenha composto tal retrato em estúdio para se parecer mais aceitável para um novo amigo sem nem mesmo saber o som da voz.

As relações perenes e esticáveis se tornam elásticas ao ponto de nada mais servir. Vivemos correndo de um lado para o outro, entre milhões de nossa mesma espécie, sem mesmo dar um tênue bom-dia. Não há necessidade. Milhões de bom-dias foram ditos horas atrás por meio das teclas virtuais pressionadas constantemente sem parar. Estamos com pressa. Mas não falamos com aquele ao lado. E se dispomos a sair de nossa zona de conforto virtual, presos a uma bolha, ficamos inertes ainda, presos em nossa própria individualidade.

Confundimos em nossos anseios de buscar o máximo pelo mínimo ser individuais em individualistas. Ficamos atentos ao próximo passo, observamos o outro como inimigo a nossos próprios intuitos. Desacreditamos o outrem por não ser aquilo que reforçaria nossa própria existência. Somos um entremeado de emoções que nada dizem, mas ao mesmo tempo gritam.

Adentramos um elevador para o próximo andar e jamais perguntamos o nome do vizinho. Não existe essa necessidade. Bastamos em nós próprios, cheios de nosso ego maior, nossa vaidade superior. Nos olhamos no espelho e enxergamos um quarto vazio, mas estamos cheios de conexões. Mas bata um pequeno clique para que deixemos aquele que antes era amigo e torna-se um bloqueado.

Ter mais amigos não é ser assediado para encontros físicos, mas sim ostentar uma extensa timeline, composta por fotos, vídeos e comentários estranhos e alheios. E se caso tenhamos que nos descontar por um singelo momento de raiva, melhor é banir quem assim estimulou a raiva, se torna mais simples. Perde-se contatos, perde-se oportunidades de reconciliação.

Afinal de quem servem os erros? Vivemos na rotina da “gameficação” da vida. Podemos e iremos buscar nossa próxima vida envolta em um coração vermelho ou cogumelo verde. Mas não sem antes derrotar o poderão chefão da fase final. Perdão se perdeu entre as fases, pois não precisamos perdoar no jogo da vida, basta passar de nível, trocar a missão, mudar o arsenal. Estamos ainda com pressa.

E caminhamos sem rumo algum, para lugar nenhum, nesse amaranhado de conexões e desconexões, com nosso ego insuflado por nossa própria existência, sempre querendo mais conexões. Olhamos para vitrines cheias de produtos quase inanimados, mas encharcados de vaidade, coloridos e indisponíveis. Vivemos a mercê da vontade alheia, conquistada por meio dos cliques e curtidas nas postagens mais fotogênicas.

Somos diversos, milhões, vagando por aí, em meio ao trânsito ensurdecedor, ao barulho dos comerciantes desesperançosos, contando migalhas espalhadas por vilões de terno e gravata, que esgueiram-se por um pífio numerário chamado voto. Buzinamos, gritamos, blasfemamos, e torpes ficamos. Bêbados em nossa inumanidade.

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Jeronimo Molina administrator

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