Ficando invisível para outros verem

porJeronimo Molina

Ficando invisível para outros verem

Toda vez que encontro um novo aluno ou cliente acabo, sem pensar duas vezes, pedindo: “tem ‘Face’?”. É instintivo. Parece que as redes sociais se tornaram parte de nós. Enquanto antes perguntávamos o número de telefone, agora pedimos o caminho para o perfil. Isso é lógico, o próprio nome diz.

Saber o perfil de alguém é como enxergar a pessoa antes mesmo do primeiro contato. Sabemos por intermédio destes perfis os gostos, vontades, preferências e até mesmo pensamentos do outro. Parece algo surreal, mas tais informações são necessárias para adquirirmos maior assertividade com nosso cliente, aluno, familiar, com o próximo.

Em tempos de hiperconectividade cada vez mais pessoas se tornam espaços virtuais, despejando por lá diversas ideias, desejos, lamentos, críticas. Somos seres sociais, a conversa de cerca se tornou um bate-papo por meio dos aplicativos de forma tão natural quanto um singelo “boa tarde” dito por um caboclo de cidade de interior. Mas nem tudo são flores em meio a exposição da imagem privada.

Há pouco mais de dois atrás surgiu uma rede social secreta, ou seja, sem os famosos perfis. Nela ninguém poderia ser identificado, mesmo criando um usuário e senha para acessá-la. O aplicativo Secret se tornou febre um pouco tempo, tinha por objetivo conectar usuários por meio de uma plataforma praticamente anônima. Isso seria ótimo para quem queria bisbilhotar a vida alheia ou provocar com “verdades” que não teria coragem de dizer.

No início tudo eram flores até que começaram a ocorrer ataques virtuais conhecido como cyberbullying. Esse problema foi tão grande que no Brasil o aplicativo foi banido por meio de processos judiciais alegando que tal prática de anonimato feria o artigo 5º da Constituição Federal, em seu inciso IV:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(…)
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato

Logo mais o aplicativo caiu em desuso em boa parte do mundo, apesar do domínio do mesmo ainda ser funcional.

Segredos continuam

Nós humanos gostamos mesmo é de um segredo. Aquilo que não é revelado para todos acaba se tornando uma maneira de nos sentirmos superiores, ou até mesmo como arma em um futuro próximo. Pensando na questão daquilo que não pode ser dito, mas precisa ser falado, a equipe criadora do aplicativo Telegram criou um site para postagens anônimas. Conhecido como Telegraph o site tem somente um espaço em branco para você escrever aquilo que quiser, sem logins, senhas ou cadastros.

Apesar de estranho a primeira vista a ideia dos criadores é tornar possível a divulgação de informações ou conteúdo da mesma forma que usamos pseudônimos, assim personalidades poderiam desabafar sem serem expostos.

Página principal do Telegraph (Hongkiat/Reprodução)

Página principal do Telegraph (Hongkiat/Reprodução)

Pode parecer estranho, mas a foto ao lado mostra exatamente como é o site. Uma linha para título, um espaço para história e pronto. Detalhe, qualquer um pode escrever, depois para compartilhar basta publicar e lançar por aí o link, que não remete ao seu nome.

Por enquanto o Telegraph não teve nenhum problema com anonimato, talvez por ser um formato de texto longo as pessoas acabam ficando com receio escreverem algo lá e serem descobertas pelo estilo da escrita. Também a ferramenta é pouco conhecida, acaba sendo divulgada mais entre os usuários do mensageiro Telegram que tem por mote principal a privacidade destes que utilizam.

Francamente

Com uma proposta um pouco diferente, mas também anônima a empresa IndieLabs localizada Arábia Saudita criou um aplicativo também secreto, mas com um nome bonito: Sarahah. Este nome traduzindo para o português se torna francamente. Não existem muitas informações no site do aplicativo sobre a plataforma, no entanto está claro que o objetivo é tornar mais aberto o ambiente profissional e pessoal, no qual as pessoas poderiam falar mais francamente, por isso o nome. Segundo a página do app no Facebook, em 12 de Julho ele estava sendo usado por 3 milhões de pessoas.

De maneira simples de cadastrar e utilizar o aplicativo cria um link personalizado vinculado ao domínio principal. Nele você tem informações das mensagens que recebeu e pode enviar mensagens para amigos que estejam cadastrados na plataforma. Tal link pode ser compartilhado pelas redes sociais (Facebook, Twitter) e ainda pelo próprio WhatsApp.

É compreensível um aplicativo com essa funcionalidade ser criado na Arábia Saudita, um país que é extremamente fechado para novidades, quando muito para liberdade daquilo que se quer dizer.

E nós?

Nem sempre é bom ser franco com as pessoas, ainda mais se tratando de maneira virtual. Agora todos queremos acabar nos expondo nas redes sociais, seja por meio de uma foto, vídeo ou um post com comentário agressivo. Como disse: somos seres sociais e queremos nos relacionar com os outros.

Aplicativos que tornam nosso ponto de vista ficar anônimo demonstram que mesmo com toda a exposição ainda ficamos com medo de tocar em certos assuntos. Paira no ar uma necessidade de se tornar politicamente correto, não dizendo nada aquilo que possa ofender outrem. Perdemos privacidade diariamente, mas não suportamos ler ou ouvir uma crítica do próximo.

Talvez tais ferramentas possa dar um verdadeiro choque de realidade em uma geração tão cheia de “mimimi” e superficial, preocupada com o alheio sem mesmo ver o que ocorre com sigo próprio. Quem sabe possamos nos tornar mais donos de si, mais conscientes de nosso papel no mundo, sem nos preocupar muito com comentários que nada agregam. Será a hora de enfrentarmos as críticas e seguirmos em frente.

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Jeronimo Molina administrator

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