O som que deve sair de nossa rouca voz

porJeronimo Molina

O som que deve sair de nossa rouca voz

Chico Buarque, não há como negar, é um excelente poeta. Escreve em suas poesias um reflexo daquilo que é nossa vida cotidiana.

Não se abstém em dizer que somos frutos de um cotidiano. Todos os dias repetidos a exaustão, sem nada construir somente sobreviver. Essa visão de mundo é tão contemporânea que já não sabemos se é a poesia de Buarque que nos retrata ou nós que retratamos ela.

Somos personagens desse teatro chamado vida, atuando de forma intempérie, nos preocupando com problemas tão cotidianos quanto o ato de ir a padaria. Nos arregimentamos a pautar nossa breve existência nesse mundo pela sobrevivência diária. 

Trabalhamos para garantir o pagar de contas, ademais que tal seja necessário e dignificante, simples ato de se atirar em uma atividade mentalmente insalubre para garantir seu pão de cada dia é triste. Pior são aqueles e aquelas que não tem se quer algo para se atirar.

Não bastaria viver para ter um mês de sobrevida, ainda precisamos enfrentar diuturnamente com a insensatez daqueles que deveriam coordenar o público por nós. Outorgamos nas urnas esse direito, no entanto utilizam dessa prerrogativa para se chafurdar na iniquidade. 

Assim permanecemos inertes diante da barbárie com nosso suor diário, que verte sobre a fronte preocupada pelo dia seguinte. 

Perdemos o brilho que nos diferenciava de outros povos, isso porque além de nos preocuparmos com nossas inúmeros problemas de ordem pessoal, vivemos sobre tensão constante de que se as situações não poderão piorar.

Nosso otimismo nato se esvaiu. Vivemos uma sociedade cunhada pelo tangenciar a esquerda ou direita, polarizando até mesmo o caminho no trânsito urbano, a conversa com o vizinho, nosso estudo.

Caminhamos para o mote onde é ousadia o ato de dar “bom-dia”, cumprimentar o desconhecido ou mesmo sequer pedir o horário. Estamos com medo do próximo, daquele que desconhecemos, mesmo que tal seja nosso vizinho.

A pressão ficou maior, a dificuldade se tornou praxe, os problemas se acumulam sem soluções, o cotidiano passa dia após dia sem nada alterar. E caminhamos todos através das delações de nossa sobrevivência aferindo os jornais tingidos de imperícia. 

Entretanto, apesar de nosso otimismo ter se esvaído por dentre os dedos, ainda nos resta algo. Ainda dispomos de voz. Esta que rouca de tanto gritar, cansada de tanto lamentar, ainda surge. 

Como um clarão em uma noite escura, deixamos de ser coadjuvantes do cotidiano para nos tornarmos protagonistas de nossa própria história. E não falo em peso de luta, muito menos em abandonar esse barco a deriva. Falo nesse tom uníssono que ecoa de tempos em tempos pelas ruas, mostrando aos outorgados que somos os outorgantes, que não queremos viver sob a égide do medo, caminhando sem rumo pela sobrevivência. 

Precisamos agora é dizer “basta!”. 

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Jeronimo Molina administrator

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