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porJeronimo Molina

Robôs são coisas ou coisas como pessoas?

Quando pensamos em geladeira, fogão, aspirador de pó estamos pensando em objetos. Tem caráter inanimado, não pertencem ao grupo de seres humanos, não vivem. Entretanto a evolução tecnológica faz com que mais e mais androides sejam semelhantes do ser humano, seja no físico, seja nos gestos, seja nas ações.

Cena de “Os Jetsons” com a sua robô doméstica. (Divulgação)

Assim quando pensamos em um robô não estamos nos referindo mais a tão conhecida Bety da animação Os Jetsons. Podemos até mesmo incorrer na premissa que sua similaridade com nossa própria espécie é tão incrível que podemos até mesmo duvidar que não são humanos. Com o advento das tecnologias de automação de conversação diversas empresas utilizam bots para se comunicar com seu público. No Brasil uma dessas empresas é o Banco Original onde tem um canal para tirar dúvidas diretamente pelo Facebook. Essa comparação acontece pois atuam como seres humanos, conversam com você como seres humanos e interagem com você da mesma forma que um atendente real, de carne e osso.

Então eis que surge um dilema: com tantas tecnologias de interação entre máquinas e humanos utilizando uma interface similar a este último, não podemos chamar robôs de pessoas?

Penso logo existo

Se pensarmos unicamente como René Descartes podemos deixar claro que a origem da existência é o pensamento. De acordo com a Wikipedia, Descartes, para chegar nessa conclusão estabeleceu “dois movimentos: demonstrar as razões que o levam à dúvida hiperbólica [um questionamento]; e demonstrar como a dúvida hiperbólica leva à certeza indubitável de que ele mesmo existe enquanto coisa que pensa [ser pensante]”.

Com essa premissa em mente podemos analisar que máquinas providas de lógica podem pensar, visto que elas podem sem sombra de dúvida resolver problemas, ou seja, questões. Assim uma máquina pode existir de fato como um ser pensante, não sendo propriamente um ser humano, mas sim um ser cibernético. Através de raciocínio lógico um ser cibernético pode incorrer em utilizar esse conceito para algo mais profundo como a construção de relacionamento cognitivo, porém distante do relacionamento emocional inerente a seres vivos.

Partindo disso podemos analisar os androides como seres pensantes e existentes, mas não inanimados ou desprovidos de capacidade cognitiva, em outras palavras, seres não vivos propriamente. Cria-se outra situação: podemos analisar o ser cibernético (androide) como um ser não orgânico, porém jamais “não vivo”, visto que este podem se movimentar, executar ações predeterminadas e ter consciência cognitiva (analisando situações-problema e determinando variáveis para resolvê-las).

Um seu livro Robôs do Amanhecer, o escrito e bioquímico russo Isaac Asimov descreve o ciúmes que o robô tinha ao ver sua “amada” se relacionando com outro homem, enquanto ele era tratado como um objeto por esta. Uma interface de sentimento tão genuinamente humano poderia ser ancorada facilmente em um ser cibernético, visto que basta uma dúvida para logo se manifestar um pensamento.

Não podemos creditar de maneira linear que um robô poderia realizar autoaprendizado exceto se condicionado fosse por seu programador original, porém com o advento da inteligência artificial um ser cibernético pode (em tese) combinar situações-problema a fim de obter um novo aparato lógico. Para solucionar situações-problema um ser cibernético pode utilizar argumentos já conhecidos para construir novos argumentos, como os seres humanos.

A sinergia em analise subjetiva (algo ainda não implementado em seres cibernéticos) é o futuro na análise cognitiva não orgânica. Essa análise está ligada as emoções: amor, ódio, raiva, felicidade, saudade, ciúmes, etc. Unificar a análise subjetiva a situações-problema no qual sejam passíveis de soluções é fundamental para creditar um aspecto “mais humano” aos seres cibernéticos.

Todavia um robô poderia utilizar aspectos não subjetivos para desencadear uma simulação de emoção, com a premissa unicamente básica de solucionar um problema. Exemplo prático seria no caso exposto de maneira romanceada por Asimov. Um robô poderia utilizar o argumento da “falta de cuidado” para simbolizar amor e através deste ver o cuidado com outrem como amor por outrem. Este por si só iria simular a emoção de ciúmes, tal qual um humano, mas distante do aspecto subjetivo.

A influência artificial

Nós, seres humanos, podemos ficar chocados quando vemos um outro ser humano sendo agredido. Se colocarmos que todo aquele que pensa é passível de compaixão (devido a sua função de raciocinar) estaríamos considerando computadores ou androides como seres relativamente propensos a compaixão.

Essa compaixão pelas máquinas é frequentemente abordada em livros ou histórias de ficção científica. No livro Eu, Robô de Isaac Asimov e no filme Exterminador do Futuro vemos que as personagens tem empatia com figuras que defendem seres humanos das agressões (sejam essas de humanos ou cibernéticos). Se existe compaixão de um ser humano para com um ser não orgânico, mas provido de “pensamento”, qual seria nossa reação ao ver androides sendo destruídos?

Filme de curta metragem criado pelo estúdio Dust, Rise mostra com certa clareza como seriam os potenciais seres cibernéticos e como poderia se instaurar um levante contra os humanos. A consideração dos seres humanos para com seres cibernéticos sem a proteção de argumentos lógicos capazes de impedir tal situação (sem a inserção dos seres cibernéticos dentro do espaço social) seriam as ferramentas necessárias para impedir uma situação limite.

No filme Ela, Theodore, personagem principal interpretada Joaquin Phoenix, se apaixona por sua assistente virtual, levando ao usuário ter ciúmes. Sua percepção era que ela é real, vindo a ser interpretada como um ser vivo, porém sem corpo físico. Sua destruição representava um tormento, pois para ele sua assistente era como uma pessoa.

Tal premissa também foi abordada na série Black Mirror no episódio Be Right Back onde uma mulher grávida de seu marido perde este em um acidente em uma van. Ela desesperada acaba utilizando um serviço que simula seu marido falecido por meio de suas conversas em redes sociais, chegando ao ponto de contratar um androide com a finalidade de substituí-lo. Um fato que acaba fazendo a mulher tomar tal decisão é a dor da perda de um ente querido, porém, devida a esta mesma dor ela resolve abandonar o androide trancando este no sótão, mas não o desliga por receio de perder seu marido novamente.

Existe uma influência artificial de apego aquilo que não é orgânico, seja de crianças por seus cães robô ou de adolescentes com Tamagoshi’s; somos seres humanos passivos de compaixão com alguém.  Acabamos por assimilar que um ser existe a partir do momento que este pensa, assim fica evidente que quando este deixa de pensar está fadado a morte.

Um fator comum em todas as cultura é o fim da existência como morte. Quando falamos em seres cibernéticos estamos falando de seres que pensam como nós, portanto ao não haver mais pensamento deixariam de assistir, ou seja, morreriam. Ao sofrer agressões por parte de outros seres, estes cibernéticos poderiam estar sofrendo (mesmo que não sentissem dor) e nossa intenção natural é sentir compaixão, visto que agressões podem levar a morte.

Em seu vídeo para apresentar o robô Atlas a empresa norte-americana Boston Dynamics empurrou sua criação ao solo para demonstrar que este conseguia assimilar a situação e levantar, tal qual um humano faria. Pode parecer estranho, mas a reação inicial de qualquer pessoa ao ver o vídeo é ficar espantado com a “agressão” sofrida pelo robô, mesmo esse não tendo capacidade cognitiva para solucionar situações-problema. Essa reação fica condicionada ao fato de que este age como um ser humano, ou seja, seria algo similar a nós mesmos. Tal “pancada” está no minuto 2:05 do vídeo.

Daqui a frente

Caracterizar o ser cibernético como um ser vivo não é a forma correta. Mas seria correto considerá-lo como um objeto? Ainda não temos a dimensão de avaliar como iremos nos relacionar com nossas próprias criaturas. Até o momento o ser humano domesticou outros seres e jamais havia criado um ser semelhante a si mas diferente ao mesmo tempo. Estamos tendo que lidar com uma situação que “deuses” tinham a se reportar na mitologia dos seres humanos. Como devemos fazê-lo não sabemos ainda.

Agora a realidade de robôs está cada vez mais dentro da sociedade e precisaremos destinar a estes seres um lugar. Se não existir um espaço para tais novos seres eles irão buscar seu espaço e fomentar um dos maiores medos da humanidade: a emancipação cibernética.

porJeronimo Molina

Governo moribundo. Povo morto-vivo?

Estou chocado. Estou estupefato. Como democrata convicto e partícipe de processos eleitorais em toda minha vida não posso compactuar com excessos de nenhum lado. Vivemos tempos sombrios, onde um povo dividido se esgueira entre governantes corruptos, instituições frágeis e parlamentares inaudíveis.

A crise política deflagrada graças a condução econômica errática do governo da petista Dilma Rousseff, alimentada por escândalos de corrupção de todos os setores políticos da República um sentimento anti-PT, foram o estopim para aquilo que vimos em Brasília neste dia 24 de Maio.

Movimentos sindicais protagonizaram cenas de vandalismo que não tínhamos visto ainda. Infiltrados ou vândalos diversos quebraram vidraças, colocaram fogo em ministérios, levaram pânico e tumulto para a Esplanada dos Ministérios. A polícia aturdida e acoada precisou agir com rigor acima de média para atos assim, usou de expediente impróprio para combater a turba que depredava.

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sabendo que a grande maioria do povo brasileiro é pacífico, passa distante de protestos mais acalorados ou que descambem para violência – algo que segue como sinônimo de criminalidade, pelo jargão jornalístico – Temer resolveu convocar as Forças Armadas. Foi aplaudido por boa parte da população que distante do espectro da crise pede “diretas já não” ou eleições indiretas.

Nosso governante não tem condições de governar, não somente pela crise econômica, mas pela crise política. Afogado em denúncias de corrupção, Temer esperneia no poder e age de maneira deliberada enviando um recado a todos aqueles que pretendem retira-lo do poder “não renunciarei”.

Andressa Anholete/AFP

A população açoitada por 13 anos de governo petista colocou a culpabilidade dos problemas do país no partido de Lula e Dilma, mesmo cientes que a corrupção é endêmica e generalizada no poder. Avaliza políticas do governo federal e terceiriza o papel de escolha aos próprios políticos. Há mesmo quem diga que “oposição é somente para atrapalhar”.

Preferem pouco a pouco ter seus direitos civis retirados em prol de uma suposta “ordem e progresso” sinônimo de “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Preferem um governo corrupto igualmente ao anterior a liberdade poder escolher. Querem Forças Armadas nas ruas agindo como polícia igualmente ocorre na Venezuela, China e Irã. Almejam um estado de exceção em prol de uma falsa sensação de segurança, enquanto ratos ficam usufruindo as benesses do poder.

Adriano Machado/Reuters

Dias atrás escrevi que o governo Temer é um zumbi, de fato é. Não há nada mais aterrador que um morto-vivo: grunhe, rosna, se despedaça e ataca sua vítima tornando-a igual. Após caminhando lado a lado grunhindo e rosnando pensando igualmente e somente em sua próxima vítima.

Seríamos nós mortos-vivos iguais ao governo?

porJeronimo Molina

Estamos divididos graças aos ladrões

Infelizmente chegamos ao fundo do poço. Podem até mesmo dizer que já estávamos nele, mas não ainda. Agora podemos dizer que não existem políticos de fato honestos como imaginávamos ter. Pelo contrário. A grande maioria está em conluio para manter-se no poder.

Antes amigos, partidos se deflagram nas redes sociais com o intuito de provar que “seu político corrupto e menos corrupto que do vizinho”. Querem provar unanimidade mesmo na roubalheira. Tem por interesse a manutenção de suas siglas e legendas, mesmo que isso venha a custar o pão de cada dia do cidadão trabalhador, a escola do pequeno ou posto de saúde do ancião. Simplesmente preocupam-se em defender seu bandido de estimação da última hora, mesmo que seja impossível defender bandidos.

Sempre crio em meu imaginário como deve ser estes políticos ao recolherem-se no seu quarto a noite, com o silêncio sepulcral que tangencia os pensamentos. Será que pensam em nós? Ou pensam em como podem se safar do último depoimento?

Como pode um presidente estar investigado por corrupção e querer conduzir um país de cabeça erguida? Como pode um ex-presidente prestar depoimento como réu e permanecer como esperança para parte da população? Não existem heróis aqui no fundo do poço. Somente existe tristeza, dor e angústia para àqueles que somente querem seguir a vida.

Nós cidadãos não podemos mais ficar a defender A ou B, estrelados ou pássaros emplumados, direita ou esquerda. Isso já basta, já foi. Nos resta agora estarmos unidos em nossas diferenças sociais, ideológicas e financeiras em prol de um futuro, de um amanhã. Caso contrário não haverá amanhã e sim um amontoado de declarações vazias com larápios a controlar nossa vida.

Agora há uma luta em curso: nós -povo brasileiro – contra aqueles que nos afundaram aqui no fundo do poço. E vamos sair daqui do fundo se unidos estivermos. 

porJeronimo Molina

Governo Temer é zumbi

Então eis que surge uma notícia bomba proferida pelo jornalista Lauro Jardim d’O Globo. Nela está descrito que o presidente Michel Temer havia concordado com pagamento de propina para manter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. No mesmo momento o governo começou a viver seu pior momento desde quando assumiu após a deposição de Dilma Rousseff (PT/RS) um ano atrás. Poderia ser o começo do fim se não havia sido decretado o fim antes mesmo do começo.

Sem sustentação popular, o governo Temer se sustenta em cima do apoio do Congresso Nacional, lugar este tomado por diversos investigados pela operação Lava Jato. De acordo com o site Congresso em Foco, 91 dos 594 congressistas (deputados e senadores) estão sendo alvo de inquérito. Sem contar ministros de estado, outros políticos de menor vulto, prefeitos, vereadores e agora o presidente da República.

Temer tenta de toda maneira convencer deputados e senadores aprovarem as reformas trabalhista e da Previdência o mais rápido possível. Ocorre que a partir do ano que vem, como de costume, políticos não se preocupam mais com votações. Suas atenções de voltam ao pleito seguinte. Ficaria complicado para qualquer parlamentar votar algo em pleno ano eleitoral, ainda mais se o assunto é controverso.

Depois da aprovação do teto dos gastos públicos, congelamento nos aumentos das despesas da União por 20 anos, não existe outra saída para o presidente a não ser votar com pressa a reforma da Previdência. Inclusive já relatei aqui sobre isso, como sinal de premonição.

Sendo sustentado pelos congressistas, Temer não tem outra saída a não ser lotear o próprio governo ou conceder diversas emendas parlamentares. Neste quesito se assemelha a sua antecessora e ao ex-presidente Lula. Tal medida foi veiculada como nota de rodapé pelo Estadão, deixando claro que o presidente estaria inclusive exonerando de cargos afilhados de políticos “infiéis”.

Demonstra com isso que o governo está na mão dos parlamentares, sendo que estes podem barganhar auxílios para si ou para seus afilhados. Foi o caso do Podemos (antigo PTN) que forçou uma nomeação para a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), conforme relatado também pelo Estadão.

A delação de Joesley Batista, dono da JBS, demonstra que o governo caiu a beira do colapso. Nela o empresário relata que pagou propina a Temer desde 2010, e continuou até o mês de março, conforme relatado pelo site O Antagonista. Em outras palavras: áudio com Temer consentindo um crime (no mínimo cometendo prevaricação), a delação de Batista e seu pronunciamento demonstrando que prefere ser investigado a deixar o cargo somente demonstra que o interesse de seu governo é se manter no poder e evitar a prisão.

No meio de todos estes fatos está a opinião pública, que como já havia descrito acima, não gosta nada de Michel Temer. Sua aprovação é baixa, praticamente nos mesmos números de Dilma próximo do impeachment. Com base na pesquisa Barômetro Potítico do Ipsos, o presidente tem 87% de desaprovação. Este número pode ser comprovado pela Paraná Pesquisas em questionário online sobre um possível afastamento de Michel Temer: 86,9% acreditam que Temer deve renunciar, e 88% são favoráveis a um afastamento do presidente.

Sem apoio popular um governo não consegue se manter no cargo por muito tempo, prova disso foi o governo Lula. Mesmo no auge da crise do mensalão, Lula teve as maiores altas de popularidade chegando ao patamar de 80%. Figura inconteste até a Lava Jato, o ex-presidente petista tinha um respaldo popular gigantesco. Diante da crise seu apoio diminuiu consideravelmente, entretanto ainda mantém uma base eleitoral sólida, nos mesmos moldes de velhos políticos como José Sarney ou Paulo Maluf (PP/SP).

Economia cambaleante

Como motivo para sua permanência, Temer em seu discurso enalteceu seus feitos na economia. Disse que está em recuperação e já dava sinais de melhora. Entretanto horas antes o IBGE divulgou um número alarmante. Hoje no país estamos com 26,5 milhões de pessoas desocupadas ou subutilizadas, ficando o índice em 24,1%. Soma-se a este número 14 milhões de desempregados (que não trabalham e não tem fonte de renda), chegando em torno de 40 milhões de pessoas em busca de uma colocação profissional, praticamente metade da população economicamente ativa (PEA).

Outro fator é que não existem bases sólidas sobre o futuro do país, forçando a investidores pensar mais do que duas vezes sobre colocar seu dinheiro aqui. Exemplo foi a queda gigantesca do índice Ibovespa antes do pronunciamento do presidente no dia 18/04, chegando a incríveis -8,8% comparado com 17/04. Entra nessa contabilização o dólar que sofreu uma valorização de 8,15% no mesmo 18/04. Mesmo com os mercados estáveis e mais calmos em 19/04 a recuperação das perdas será lenta, pois ainda o futuro do governo e da nação é incerto.

Sem emprego e sem investimentos falta o essencial para a população: poder de compra. Diferente dos governos FHC ou Lula, mesmo em meio as crises não ocorreu uma perda significativa do poder de compra, as pessoas podiam comprar de maneira igual ou com pouca queda. Graças a política econômica errática de Guido Mantega (PT/SP) no governo Dilma, que culminou com a recessão, as pessoas passaram a comprar menos. Boa parte dos salários foi corroída pela inflação que chegou a mais de 10,67% em 2015 e 6,29% em 2016, claramente diminuída graças ao menor consumo.

A previsão é uma inflação menor neste ano girando em torno 4%, ficando perto da meta, mas não sendo um estímulo para a geração de empregos. Observa-se que o intuito do governo Temer é aprovar as reformas (principalmente a trabalhista) para incentivar o investimento de grande porte, propiciando a geração de empregos em larga escala no curto prazo. Porém vale ressaltar que com uma massa de 40 milhões de pessoas há a necessidade de composição econômica mais rápida, fortalecendo o pequeno negócio e não o grande empreendedor. Este último almeja a lucratividade em escala, pouco importando na manutenção de seus negócios aqui ou em outro país mais vantajoso.

Com recursos escassos no BNDES para “segurar” novos empreendimentos de vulto e sem respaldo político para tocar reformas seguras e aceitas pela opinião pública, se torna difícil gerar empregos, foco principal de qualquer governo.

Decadência

Jogando todas suas fichas em sua inocência, Temer tende juntar o que sobrou da base aliada depois da hecatombe política. Em meio a investigação pela Lava Jato (que já tem fortes indícios de prevaricação), com manifestações de movimentos sociais ligados a setores de esquerda (notoriamente mais firmes em seus propósitos), baixa popularidade, pressão de líderes políticos por sua renúncia, ficará praticamente impossível tocar o barco. Se com Dilma estávamos a deriva, navegando por inércia, com Temer estamos flertando com o abismo.

Alvo de inquérito o presidente ficará preocupado em não manchar sua reputação política e pessoal ou tocar o país? Se optar pelo primeiro poderá acabar com aquilo que sobrou, se optar pelo segundo poderá ser preso. Fica extremamente complexo lidar com essa situação, fica impossível governar dessa forma.

Alguns políticos e partidos da base aliada já deixam o governo. Preocupados com as eleições de 2018 não querem ter sua imagem vinculada a quem possa ser preso em seguida. Exemplo seria o próprio Podemos, que resolveu entregar seus cargos e assumir postura independente. Diferente de Dilma que foi demovida do cargo por irresponsabilidade, Temer cometeu um crime comum, pode acabar indo parar na prisão.

Sobra para nós, brasileiros, convivermos com o abismo ao lado, acreditando que tudo isso sirva de lição: não podemos entregar nosso destino pessoal nas mãos de quem pega em malas cheias de dinheiro de origem ilícita.

porJeronimo Molina

Ter humildade não é viver na penúria

Seja humilde. Essa é uma máxima de diversas crenças e filosofias. Podemos dizer que o quesito básico para ser humilde é se colocar no lugar do outro, ter empatia. Infelizmente hoje não estamos com essa palavra muito em voga em nossa vivência social. Caminhamos rumo a antipatia, no qual todos se colocam a pensar sobre si mesmos, mas não de forma narcisista e sim de forma queixosa.

Se olharmos para nossa própria existência podemos ver que não somos tão humildes, pelo contrário. Em raras ocasiões nos posicionamos no lugar de outrem. Simplesmente ignoramos que o próximo tem defeitos e virtudes como nós, que também tem problemas como nós, mazelas, chagas e marcas. Acreditamos que nosso próprio mundo é fardo bastante para deixarmos de lado a situação alheia.

Rotulamos então como humilde aquela pessoa que não detém posses. Dinheiro, propriedade ou conta bancária se tornam pré-requisitos para determinar se alguém é ou não. E tal afirmação vem carregada de significado como baixa escolaridade, pouca influência social, periferia, tristeza e sofrimento. Imaginamos de pronto que uma pessoa humilde não seja capaz de ser um cidadão pleno. Empurramos com nossos conceitos tal indivíduo para a margem de toda a sociedade.

Precisamos convir que fomos ensinados assim. Creditamos ao sinônimo para humildade uma vida sem luxos e muita luta cotidiana. Quem sabe nos referimos a humildade como de Francisco de Assis que se tornou santo graças a sua vida desprovida de conforto mínimo. Até mesmo nos referimos a humildade como descrito na Bíblia que “é mais difícil um rico entrar no reino dos Céus do que um camelo passar por um buraco de uma agulha”. Conectamos durante anos a questão de humildade com falta de recursos.

Deveríamos lembrar que uma pessoa em condição precária pode ser humilde ou não. A condição econômica de um indivíduo não poderia ser a chave para caracterizar atributos como bondade, benevolência e humildade. Iríamos incorrer em erro, pois condição não pode significar a forma de vermos o mundo. Existem aos borbotões narcisistas em condições econômicas desfavoráveis.

Viver em condição de penúria forçada também não fará com que seu pensamento seja modificado. Ninguém se torna humilde do dia para a noite, muito menos vivendo sem conforto tão necessário quanto almejado pela nosso pós-modernismo social. Existe uma construção interna para se tornar alguém mais humilde, e não passa pela condição financeira.

A derrocada em queda livre, de uma posição destaque, encaminhando para a vala dos comuns da sociedade, pode (em que pese outras circunstâncias), tornar alguém humilde. Reforça-se o “pode”. Acontece que ninguém é obrigado a mudar sua conduta simplesmente pela perda de economias ou dinheiro. Situação de miserabilidade pode ser um influenciador, mas jamais será o estopim. Prova disso são aqueles antes fidalgos que caminham pelas ruas empoeiradas e sujas portanto roupas de grife, mas com pés descalços.

Tão pouco podemos dizer que um endinheirado deixa a condição de humilde graças sua conta bancária recheada. Talvez o valor que emprega para o outro seja demasiadamente superior àquele que vive em condição precária. Reforço também o “talvez”. Não é consenso entre abastados que humildade seja função necessária para conquistar mais, pelo contrário. Normalmente ricos não convivem com pobres (ou desprovidos de condição material significativa), por não pertencerem mais ao grupo. Não querem sofrer, preferem a vida de luxos e condição momentânea antes de voltar ao pó imaterial no pé da cova.

Não podemos contar além dos dedos de uma das mãos, mas existem, em todos níveis sociais, humildes. Como significado acima descrito, ser humilde é ter empatia. São estes que estão com braços estendidos quando alguém precisa de ajuda, seja para atravessar uma rua ou comprar comida. Não abdicam de sua condição financeira — favorável ou desfavorável- para auxiliar. Estão dispostos a compreender a agruras que passa a dona de casa no cuidado com os filhos, o médico no hospital superlotado, o trabalhador desempregado ou o professor com seus alunos desatentos. Não hesitam a colocarem-se no lugar do mais próximo, nem que para isso precisem evitar de pensar um pouco em si. Humildes mas não sem conhecimento da vida cotidiana. Talvez por terem vivido antes, ou, talvez por não querer viverem.

Exatamente na mesma Bíblia que relata a abdicação da renda para adentrar no reino dos Céus consta que os “humildes serão exaltados”, e de fato serão. Pois alguém com humildade em reconhecer a dor, a mágoa, a angústia, a necessidade do próximo, independente de sua condição será sem sombra de dúvida lembrado. E não falo da lembrança divina, mas será lembrado eternamente como um verdadeiro auxiliador.

porJeronimo Molina

Querer um consumista ou consumidor?

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Verdadeiro acúmulo de bugigangas. Um sem fim mundo de quinquilharias. Muitas vezes o ato de comprar acaba de tornando o ato de acumular. Graças as fortes campanhas de marketing onde a aquisição de um produto serve muito mais que o uso dele mais e mais pessoas acabam comprando aquilo que não precisam. Desde jarra elétrica até panela de pressão para micro-ondas, diversos itens se acumulam nas lojas e em nossas casas. 

Alguns colocam a culpa nas campanhas de marketing desenfreadas -que mesmo não isenta de culpa- não é algoz de todo mal. Poucos sabem, mas o marketing trabalha com o uso da emoção para aquisição de qualquer produto, sendo que isso faz parte do processo de compra de qualquer pessoa. Nem sempre aquilo que compramos vamos precisar, por isso profissionais de marketing pensam formas de atrair seu público através do desejo de comprar.
Errado? Não. Graças ao desejo de comprar acabamos produzindo produtos melhores e mais objetivos, tornando assim o mercado mais dinâmico e com isso incentivando o consumo. 

Mas entra em cena a figura do cliente, que é o real detentor do poder de compra. Ele decidirá se irá ceder a pressão das campanhas de marketing ou simplesmente irá deixar o produto na prateleira como se nada tivesse ocorrido. Por este motivo cada vez mais os profissionais de marketing buscam formas de tornar produtos desejáveis. Porém para tanto não basta somente uma boa embalagem, um bom slogan e pimba! Venda realizada.
Conhecer o cliente se tornou fundamental. 

Redes e os consumidores

Na tentativa de conhecer melhor quem compra os produtos, profissionais de marketing estão caindo de cabeça nas redes sociais. Conceitos como

inbound marketing, marketing social, content marketing

e outros pipocam por todos os cantos. Neles tem por base a criação de personagens para adquirir os produtos, facilitando assim a comunicação espontânea e direta de cada marca com seu potencial cliente. Dessa forma campanhas de marketing se tornam mais direcionadas e conversam mais facilmente com seus clientes. 

Com engajamento na comunicação social, empresas querem buscar seus clientes diretamente em seus smartphones ou computadores. Assim criam perfis ou páginas nas redes sociais e trabalham em campanhas que simbolizem muito mais que o desejo por si só. Querem que seu produto seja algo utilizado no cotidiano, que faça parte constante na mente dos clientes potenciais. 
Mas isso já em parte passado. Graças ao advento das tecnologias modernas de inteligência artificial diversas empresas começaram a utilizar robôs para conversar com seus clientes. De maneira simples estes anotam pedidos, conferem produtos, relatam promoções e tiram dúvidas, mas não são humanos. 

É a evolução do atendimento eletrônico dos call centers, onde o prospect acaba realizando seu processo de compra juntamente com uma máquina. Muito melhor que vending machines!

Entretanto a customização da comunicação é fundamental para angariar mais clientes, e despertar nele o desejo por um produto ou serviço. Estranho dizer, mas ainda é necessário um bom papo e nada melhor que o Facebook e Instagram para isso. 

Novos adeptos reais

As redes sociais não são somente um amontoado de palavras, também utilizam imagens e estas refletem muita coisa. Criar o desejo no cliente por meio de conversa não tem o mesmo impacto que uma foto bem produzida. 

Por meio de blogs marcas se posicionam para seus prospects, levando além de um ideia de consumo, conteúdo exclusivo. Meninas que batiam fotos de seus “looks” nas redes sociais acabaram se tornando consultoras de moda online, mas com o um toque se simplicidade e proximidade com o cliente final. 

Os clientes acabam observando que a blogueira de moda é uma pessoa comum, assim como ele. O consumo portanto não fica mais atrelado ao status ou glamour, mas sim voltado para um público que prefere consumir aquilo que uma pessoa comum consome. 

Se reposicionando no mercado, lojas famosas e grifes utilizam imagens para demonstrar que seus produtos podem ser usados por qualquer pessoa, não precisa estar em determinado nível social. Agora estamos na era da democratização do consumo, onde qualquer pessoa pode ser sinônimo de consumidor, e por consequência promotor daquilo que utiliza. 

Através dessa proximidade com o cliente, empresas como a Nubank conquistaram um público fiel. Com postagens no Instagram relacionando a equipe, seus clientes e situações do cotidiano o produto da empresa -cartões de crédito- não para de conquistar novos adeptos. Este exemplo demonstra que o cliente agora quer fazer parte da marca, estar conectado com ela, fidelizando este com o produto. 

Consumismo x Consumo

Porém as marcas precisam ter em mente o significado de consumo. Não pode simplesmente lançar seu produto no mercado a fim de obter vendas somente. Engajar um cliente demanda tempo, é um jogo de gato e rato. Depois manter esse cliente na base deve ser feito com cuidado. Com o dinamismo das redes sociais uma informação mal compartilhada pode levar um negócio de anos ao fracasso. 

Se não bastasse, as empresas devem ter um canal de comunicação sempre aberto com prospects ou clientes, e não digo somente uma central 0800 ou serviço de contato por e-mail. Hoje canais de comunicação são mais amplos englobando desde mensagens por WhatsApp até postagens na timeline do Facebook. A lembrança da marca não se faz mais somente com um cartão no aniversário e outro no Natal. 

Por isso o consumo deve ser o reflexo de uma política de marketing voltada para a comunicação com o cliente, mesmo que este não compre nada na primeira, segunda ou terceira vezes. Falar é a palavra de ordem neste novo tempo do marketing. Estreita-se laços e acaba por ser parte da vida do cliente levando esse a ser um promotor natural do produto. 

Incentivar o consumismo, tendo como objetivo final a venda acaba afastando clientes. Depois da aquisição de um produto sem sentido se arrependem a tratam de convencer outras pessoas a não comprar. O resultado é um efeito em cascata inimaginável, onde as vendas diminuem graças a uma venda impulsiva e agressiva. 

Portanto incentivar o consumo consciente, com muita conversa e informação sobre o produto é fundamental para fomentar mais vendas e consequentemente obter resultados positivos. 

porJeronimo Molina

Sou contra as reformas e sou liberal

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Alguns conhecidos se espantaram por ser eu contra as reformas propostas pelo governo Temer, principalmente a trabalhista e previdenciária. Alardeiam aos quatro cantos que acabei “me vendendo” ou quiçá caindo no canto da sereia. Posso dizer que jamais vendi minha consciência e por demais cai de cabeça em canto algum. Continuo a crer indubitavelmente no poder do indivíduo e sua capacidade de transformação por meio de livre iniciativa. Admiro a construção de uma sociedade cunhada na livre concorrência econômica, e primo por todas as liberdades que possam afirmar o livre-arbítrio de cada pessoa. “Mas o que fez você, sendo liberal, pensar diferente?”, perguntou um conhecido. A resposta é simples, mas preciso elucidar alguns pontos primeiro.

Ponto 1: Liberalismo a moda brasileira

Ao observar como chegou a questão de ser “liberal” no Brasil observei que o liberalismo clássico apregoado por alguns não seria o suficiente para emancipar o cidadão a fim deste atingir um patamar superior. Mesmo ainda tendo por base Adam Smith em seus preceitos fundamentais, seu modelo aplicado na Europa do século XVII não poderia ser aplicado sobre maneira em nosso país em pleno século XXI. Vivemos hoje em uma sociedade segmentada e dividida por convicções ideológicas tão abissais quanto antagônicas. De lado existem cidadãos preocupados com a ascensão social por meio do próprio Estado, onde este deve ser como provedor supremo daqueles menos necessitados, retirando como um Robin Hood às avessas o dinheiro da população mais abastada; de outro vemos cidadãos defendo a eliminação completa de todos os benefícios para as camadas mais pobres, deixando a mercê a população carente a própria sorte.

Da mesma forma que o liberalismo clássico, o “liberalismo de direita” cantarolado por alguns think tanks e amplificado seu discurso junto a antiga classe média também não seria o adequado. Infelizmente hoje no Brasil grande parte da população perdeu poder de compra devido a crise econômica criada pelos governos de Lula e Dilma. Incentivar o grande empresário, detentor das benesses do “capitalismo de Estado” não é adequado para eliminar esta situação. Assim a nova classe média, empurrada de volta ao patamar de pobreza, sonha ainda ser seu próprio “patrão”, em um ambiente impropício para negócios por se tratar de uma concorrência imperfeita. Por mais que tais think tanks alardeiem que seria necessária uma reforma tributária, nenhum apresenta uma solução plausível para o potencial pequeno empresário.

Se não bastasse liberais de direita, considerados por alguns como “nova direita” tem por mote a exclusão do debate temas de origem social, preocupando-se somente em criar um ambiente econômico favorável as grandes empresas, deixando o motor da economia nacional -o pequeno empreendedor- a mercê da própria sorte. Não bastando rotulam cidadãos moradores da periferia como fonte de negócios simplistas, evitando fazer acordos com estes, levando nossa sociedade voltar a padrões da década de 1980, no qual a periferia servia as grandes empresas com mão de obra, basicamente.

Ocorre que boa parte da população brasileira quer conduzir um negócio próprio em pé de equidade com grandes empresas, mas esbarra na concorrência predatória destas, sem contar na carga tributária excessiva. Em decorrência disto acaba caindo no conhecido mercado cinza, combatido ferozmente por elementos próximos ao poder estatal vigente. Fruto deste cenário é a ciranda de trabalhadores sub-assalariados, que tende a crescer se tais ideias forem praticadas, levando a cidadãos com diploma universitário e conhecimento de sobra se tornarem simples mão de obra a fim de fomentar maiores estruturas, impedindo o crescimento econômico e social.

Ponto 2: Esquerda x Direita

Com todo esse ampliar de conceitos liberais trazidos pelos think tanks norte-americanos e europeus, a dita esquerda brasileira suscitou a espernear. Não seria diferente, incólume durante anos no cenário político, social, educacional e econômico, ela viu seu poder de pressão diminuir radicalmente. Tendo por base um pensamento focalizado nas premissas de Karl Marx, boa parte do discurso de defesa de classe caiu por terra quando seus líderes acabaram sendo pegos com a boca na botija. Em delações premiadas diversos de seus proeminentes líderes estão arrolados em investigações no âmbito da Lava Jato.

Se não bastasse pesquisa divulgada pela Fundação Perseu Abramo deixou petistas sem entender mais nada: a base social, força do PT no passado diz através dos dados que não queria saber de direita ou de esquerda. Ou seja, não tem intenção de entrar nesse terreno espinhoso e não consensual do espectro político. Reforçou com isso a tese do filósofo político italiano Norberto Bobbio que tanto direita como esquerda não existem mais.

Assim observei que o sentimento mais generalizado não seria “esquerda x direita” mas sim anti-PT. Infelizmente estamos escolhendo políticos com níveis de anti-petismo desde as mais radicais até as mais brandas, rotulando pessoas com pautas diferentes destes políticos como petistas. Existe uma mistura, no ideário de alguns, entre esquerda, petismo, lulismo, comunismo e outros “ismos” que não cabe aqui ressaltar.

Debater de maneira profícua sobre política se tornou um cenário de tortura. Neste cenário alguns ditos liberais aplaudem João Doria como um outsider mesmo tendo ele participado da vida política nos final dos anos 1980. Da mesma forma alguns ditos nova direita aplaudem Jair Bolsonaro como se este fosse a égide da ética, mesmo estando cumprindo sua sétima legislatura. Não existem ideias, existem somente messias.

Ponto 3: Social-liberalismo

Infelizmente não existe um debate político sobre posturas ideológicas, ocorre simplesmente o debate como times de futebol, criticando o político adversário e aplaudindo o seu preferido. Ninguém discorre sobre a situação das pessoas, da população como um todo. A grande maioria dos “debatedores de Facebook” acaba convergindo sobre as qualidades ou defeitos do político, esquecendo daquilo que o político prega e tem intenção de fazer.

Depois das manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff, eu participava ativamente no Movimento Brasil Livre (MBL), atuando como um dos coordenadores do mesmo em minha cidade. Por diversas vezes solicitei para que o mesmo usasse seu brio popular com o impeachment com a finalidade de formentar a construção de um partido pensando no social e no liberal ao mesmo tempo. Na época já existia o Partido Social Liberal, porém este não era visto com bons olhos pelo movimento. Nas diversas tentativas sempre fui demovido da ideia, sempre deixando claro que o objetivo do movimento seria a inserção em diversos partidos simultaneamente. Percebi que o intuito das lideranças do MBL era basicamente ocupar o espaço dos políticos mais antigos, substituindo os players do jogo, mas continuando a jogar o mesmo jogo.

Derradeiro golpe na credibilidade do movimento para comigo foi ler matéria publicada na Folha, onde mostrava um dos líderes do MBL (Renan Santos) participando de uma conversa com Moreira Franco (conhecido como “angorá” nas planilhas da Odebrecht). Não sou daquelas pessoas que prega a política romântica do século XVIII, mas não poderia me assentar em reunião com quem tinha dúvidas de sua moralidade. Resolvi sair do MBL sem sombra de dúvidas.

Foi então que comecei a ler a respeito do social-liberalismo, uma mescla de pensamento social com economia de mercado. Através desta leitura e muita reflexão cheguei a conclusão que muitos dos integrantes da nova direita não se preocupavam com as camadas mais populares, da mesma forma que alguns integrantes da “velha esquerda”. Cheguei a conclusão que a melhor forma para tornar nosso país melhor seria a construção de uma sociedade equilibrada, onde a economia seja fruto do esforço individual através de pequenos negócios organizados, que as pessoas possam obter ganhos similares entre si não através da redistribuição de renda forçada pelo Estado, mas pela criação de empregos mais dignos e justos.

Vi que podemos aliar justiça social, emancipação de camadas mais pobres e distribuição de renda com economia de mercado e liberdade individual, tudo isso sendo permeado por um papel estatal de fiscalizador e mediador e não provedor.

Contra as reformas

Ser contra as reformas dividiu mais ainda o país, pois a grande maioria acredita que automaticamente ser contra as reformas é o mesmo que apoiar o PT e seus desmandos. Posso dizer sem sombra de dúvida que não. Ser contra as reformas demonstra que não podemos mais ficar a mercê da tutela do Estado a fim de legislar sobre algo que tem impacto social tão grande na vida das pessoas. Mudar as regras do jogo agora em um ambiente de crise econômica é uma temeridade. Se não bastasse as reformas alimentam somente os interesses do grande empresariado, que se farta e esbanja nas benesses concedidas por um governo tão corrupto quanto o anterior.

Entretanto não se credita boa parte do avanço econômico que tivemos nos últimos anos ao pequeno empresário, onde boa parte da geração de empregos fica atrelada. São os micros e pequenos empresários que acabam por suportar boa parte dos encargos sociais gerados para alimentar a máquina pública. Serão estes o mais prejudicados com as reformas trabalhista e previdenciária.

Com regras mais gerais o pequeno empregador consegue estabelecer uma relação direta com o empregado, assim ambos conseguem dialogar sobre aquilo que foi legislado previamente, evitando assim interpretações diversas. Baseando nas propostas apresentadas pelo governo e já aprovadas na Câmara dos Deputados, os acordos entre empregadores e empregados serão livres, deixando de fora o legislado. Assim se criarão diversas interpretações de cada contrato, empurrando para Justiça do Trabalho inúmeras reclamações trabalhistas.

Algo que não é considerado na reforma trabalhista, em específico, é o aspecto social do trabalho. Pela reforma um trabalhador poderá exercer sua função por até doze horas diárias com no mínimo 30 minutos de intervalo, sendo assim haverão somente outras doze horas para ele se deslocar do trabalho, conviver com seu núcleo familiar, se aprimorar e logicamente dormir. Considerando que atualmente um trabalhador morador das grandes cidade leva em média três horas para chegar ao trabalho e retornar para casa, este somente poderá trabalhar e nada mais.

Em se tratando de reforma da Previdência essa fica pior para ambos: pequeno empresário e trabalhadores. Com um encargo de Previdência na faixa de 20% sobre o faturamento, micros e pequenos empresários deverão pagar por mais tempo seus trabalhadores, visto que estes irão se aposentar mais tarde. Pensando nos trabalhadores estes deverão se aposentar de maneira integral com 40 anos de contribuição ininterruptos. De acordo com a média de entrada no mercado de trabalho em 20 anos de idade, podemos dizer que um homem -se trabalhar continuamente, sem interrupções- irá se aposentar 60 anos de idade. Considerando que após uma demissão o reingresso no mercado fica em torno de um ano, essa idade pode chegar facilmente aos 70 anos de idade.

Soluções

Existem soluções possíveis e plausíveis para contornar o gasto com Previdência e flexibilizar o mercado de trabalho trazendo equidade. Assim micro e pequenos empresários poderiam gerar empregos e os trabalhadores saberiam seus direitos de acordo com lei.

Sabemos que legislação trabalhista é antiga e não prevê situações como teletrabalho (home office) ou trabalho temporário. Entretanto ela garante uma estabilidade jurídica para empregadores e empregados, pois todos sabem as regras do jogo. Uma reforma trabalhista seria ideal se pudesse conceber um ambiente de equidade na diferenças entre os players.

Um primeiro passo seria a redução gradual dos encargos sociais, deixando os micro e pequenos empresários isentos do pagamento de contribuições sociais como INSS, CSLL, PIS e Cofins. Estes programas seriam mantidos através de fundos mútuos compulsórios a ser recolhidos por empresários e empregados com base no valor do faturamento bruto. Este fundo seria administrado por um banco privado escolhido em comissão paritária e serviria para: garantir aposentadoria, seguro-desemprego, amparo social (auxílio acidentário, licença maternidade, etc) e pensão.

No que tange a Previdência Estatal essa seria vinculada ao FGTS, porém este fundo seria administrado por banco estatal onde cada empregado teria uma conta única e intransferível.

Ainda pensando em reformas haveria a redução da jornada de trabalho, seguindo tendência mundial, das atuais 44 horas semanais para 40 horas semanais. Isso traria melhor acondicionamento dentro de uma jornada de segunda a sexta, priorizando o já escasso tempo do final de semana. Entretanto a jornada diária passaria para 9 horas com uma hora de intervalo para descanso.

Tais propostas são embrionárias, mas servem para demonstrar que existe possibilidade de aliar ganho social com economia de mercado, ou seja, podemos colocar social-liberalismo nas reformas para adequar todos os lados em equilíbrio e tranquilidade.

porJeronimo Molina

Barco que todos estamos

Há nos últimos dias um embate nas redes sociais entre quem tem mais razão: quem vai fazer greve e quem não vai. Neste embate pouco profícuo -visto que ambos os lados já tem seu pensamento consolidado- surgem expressões como “quem irá fazer greve é vagabundo” ou “quem concordar com a reforma da CLT não é pobre”. Como sempre nenhum dos lados tem razão total em argumentos desse tipo.

Durante muito tempo vivemos tempos melhores em nosso país, graças as políticas econômicas e sociais que foram implementadas. Conseguimos conquistar um patamar invejável na América Latina. Quem poderia imaginar que nosso Brasil seria matéria de capa na The Economist como um exemplo a ser seguido? Estávamos navegando em águas tranquilas, graças as reformas econômicas necessárias implementadas nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, algo que não se pode negar. Foi então que veio a turbulência.

Com a crise econômica internacional ocorrida em 2008 nosso planejamento macroeconômico foi para o espaço, e o mar tranquilo se tornou agitado. Por sorte as águas vindas do turbulento mercado norte-americano para cá não estavam tão bravas assim, dessa forma conseguimos organizar a casa de maneira ágil e rápida, mas da forma errada. Utilizando reservas públicas conseguidas nos anos anteriores o governo Lula injetou no mercado financeiro uma enxurrada de dinheiro. A prática foi realizada de forma semelhante em outros países, só que lá fora o local injetado foi diferente. No Brasil houve injeção de recursos para o consumo e lá fora para o investimento.

Sendo assim o primeiro (consumo) tem um efeito positivo imediato, evitando uma recessão por meio de aquisição de bens. Com a compra de novos bens se produz mais, se produz mais precisa-se de mais pessoas, com isso evita o desemprego. Lá fora foi realizado investimento em aumento da capacidade produtiva, assim as pessoas consumiam mais porque havia mais produtos no mercado, a famosa lei da oferta e da procura. Tudo estava indo bem no Brasil até que surgiu o ministro da Fazenda Guido Mantega.

Com uma proposta sem pé nem cabeça ele inverteu a lógica na economia nacional, retirando o tripé macroeconômico imposto até então por uma salada de princípios que não se via desde os tempos de Keynes. Em outras palavras: Mantega seguiu a risca a cartilha do economista norte-americano John Maynard Keynes, no qual o estado deveria participar ativamente da economia como regulador de mercado, evitando assim uma crise mais profunda.

Logicamente deu tudo errado. Com excesso no gasto público devido a concessão de financiamentos a grandes empresas aliado com a diminuição no crédito graças a enxurrada ocorrida anos antes entramos em um período de recessão. Mesmo tendo sido profetizado por diversos economistas, dentre eles Eduardo Giannetti,  que entraríamos nas piores crises da redemocratização, ninguém na época dava muito importância. Estávamos mais preocupados com a polarização política em torno das candidaturas de Dilma Rousseff (PT/RS) e Aécio Neves (PSDB/MG).

A campanha não foi uma “festa da democracia” como anunciava a Justiça Eleitoral na época, foi mais uma briga de desafetos. As atitudes dos dois maiores candidatos ficaram mais evidentes quando foram para o segundo turno, tornando assim a campanha eleitoral mais um suplício do que mesmo uma campanha. Essas atitudes de dicotomia acabou tornando nosso país dividido entre “vermelhos” e “azuis” semelhantes a torcidas de futebol – muita paixão e pouca razão.

O ápice da divisão ocorreu com o impeachment de Dilma Rousseff, tendo como estopim os protestos sem agenda de 2013 e culminando com a crise econômica de 2015. Marca desse momento foi em frente ao Congresso Nacional uma barricada para separar grupos favoráveis  e contrários a presidente. Poderiam ser até comparados a torcidas de futebol, se não fossem piores. O país se tornou uma arena onde as discussões políticas não são colocadas ao campo das ideias mas sim ao campo dos princípios. Existem grupos que tomaram para si princípios de políticos sem trânsito entre seus pares, outros defendem com unhas e dentes políticos que roubaram milhões e tem ainda aqueles que acreditam em teorias advindas de think-tanks de origem duvidosa.

Chegamos no mês de abril de 2017 com pautas espinhosas, quem podem ser ou não fundamentais, mas ainda divididos. Estamos separados por nossas convicções políticas, que antes eram motivo de discussões comuns em mesas de bar, e se tornaram calorosos debates entre pessoas de uma mesma família. Estamos separados. Estamos divididos.

Entretanto, enquanto estivermos separados em nossas convicções, agindo como um sacerdote a repetir um mantra com a finalidade de converter  alguém -nem que seja a força- outros se esbanjam nas mesas do poder, no meio das negociatas. Enquanto políticos de senso crítico querem ver o Brasil andar para frente e não para os lados como um caranguejo, ficamos nós discutindo qual partido tem mais processos criminais.

Motivos para manifestar-se há de sobra: corrupção, lavagem de dinheiro, desmando, desgoverno. Não existem cores em manifestações, greves e protestos. Estes não são formados pela burguesia com a barriga cheia de caviar e muito menos pelo vagabundo que tem a intenção de ampliar o feriado. Felizmente não. Estes são formados por pessoas, que assim como foram as ruas pedir impeachment, foram as ruas pedir Diretas Já, foram as ruas pedir justiça e vão as ruas constantemente exigir dos políticos mais respeito e dignidade.

Sejam empresários, empregados, médicos, professores, policiais, estudantes, enfermeiros, aposentados, políticos ou seu amigo, todos moramos no Brasil. Não existe aqui “vermelhos” ou “amarelos”. Se um perde todos perdem, se um ganha todos ganham. Porque somos, antes de tudo, um só Povo. Somos todos brasileiros.

porJeronimo Molina

A verdade política nua e crua

Não é de hoje que os bastidores do poder escondem histórias das mais absurdas. Desde os tempos primórdios da República Velha suscitam contos que mais parecem advindos de livros infantis daqueles com magos e bruxas. 

Nos faz pensar que em diversas vezes na jovem República brasileira tivemos episódios onde a moral e a ética foram deixadas de lado em prol do desenvolvimento nacional ou para melhorar a vida dos mais pobres. Surgiu daí o famoso jargão “rouba mas faz” dado principalmente a Paulo Maluf (PP/SP) quando prefeito de São Paulo superfaturou obras na cidade.

Com isso se criou um costume no mundo da política que para ser um bom político deveria saber enrolar. Na melhor arte da malandragem tinha uma certa vantagem o cidadão que dispunha de tal habilidade caracterizada como pré-requisito. 

Nessa questão temos políticos que se tornaram folclore, como próprio Maluf, Renan Calheiros (PMDB/AL), Jader Barbalho (PMDB/PA), Fernando Collor (PTC/AL), entre outros. Tinham em suas palavras a doce arte de enrolar o eleitorado, que cego — por necessidade ou vontade — permaneceria durante décadas votando nos mesmos candidatos.

Em outras palavras a política nunca foi palco para o cidadão correto e pagador de seus tributos. Era o mundo das portas fechadas, das negociações escondidas, dos jeitinhos que tornavam pessoas comuns em milionários num piscar de olhos.

Reza a lenda que quando um filho abastado não tinha tino para fazer nada a não ser “tagarelar”, seu pai dava um jeito de colocá-lo na política. Ao menos por lá poderia agraciar sua família com os deleites do poder.

E que deleites! Semana mais curta, salário pomposo, jato particular, reuniões com mega empresários, jantares chiques. Seria de se estranhar que não houvessem no meio de tudo isso as traições conjugais, para tornar o cenário mais caricato. 

Assim entre um vinho e uma dose de uísque importado, o nobre político plantado ali se usufruía das vantagens do cargo ocupado como parlamentar ou diretor de alguma estatal.

Sendo que nós nobres eleitores vislumbrávamos com certa desdém aquele mundo da fantasia, onde não existem ônibus lotados, filas em hospitais e tudo funciona perfeitamente ao ressoar de uma caneta pressionada em uma folha timbrada. 

Nunca haveríamos de gostar de tal estirpe, porém não deixávamos de acompanhar o desenrolar daqueles que decidiam assuntos e temas de nossa vida mais cotidiana como uma escola no bairro, uma ponte para a cidade ou um posto de saúde completo.

Mas eis que veio a Lava Jato, um posto de gasolina que lavava dinheiro por meio de limpezas automotivas e um delator — com medo ou pressionado — disse com todas as letras: “mas isso tem haver com o doleiro de Brasília”? Então começou a verdade surgir diante dos olhos.

Bem-vindo a selva

A banda Guns n’ Roses tem uma canção que mostra bem o período que passamos: Welcome to the Jungle. Não que a letra simbolize operações da Polícia Federal ou descreva o juiz federal Sérgio Moro, mas sim o nome. Estamos hoje vivenciando a selva que era a política nacional. 

Uma mata fechada onde poucos poderiam entrar, exceto se participassem do jogo toma lá, dá cá. Deveriam esquecer da ética dada em casa ou quem sabe da moral aprendida na escola. Precisariam se despir de todos os princípios arraigados por meio das crenças em divindades e lançar mão na cumbuca cheia de cédulas.

Seja da esquerda defensora do mais pobre e proletário, seja da direita mais interessada na economia de mercado, seja do centro fisiológico ou do candidato mais “cristão”, todas as vertentes se usaram da versão mais nefasta atribuída ao ganha-ganha. 

Mesmo que alguém diga que isso é normal em outras culturas, no qual empresas oferecem dinheiro para políticos a fim de beneficiar-se, aqui o fluxo foi inverso. Acostumados com a falta de rigor no uso do dinheiro, partindo da ideia que seria uma sacola sem fim, políticos de várias cores partidárias se chafurdaram nos recursos de empreiteiras, principalmente da Odebrecht.

No começo, segundo as delações por ora mostradas pela imprensa, a empreiteira buscava os políticos para que obtivessem vantagens. Caberia ao político honesto (ou com um mínimo de sendo ético) negar tal auxílio, não por ser santo, mas porque era o minimamente correto a se fazer. Mas como em terra brasilis tudo é com interesses pessoais bem acima dos interesses sociais, a grande maioria aceitou a ajuda, somente preocupados com as próximas eleições. Em outras palavras, políticos estavam somente interessados em manter suas benesses, ponto.

Algo que políticos não esperavam é que dinheiro tem fim. Quando ascendeu ao poder com seu partido, Lula, começou a procurar a empreiteira, de tal forma que esta chegou a “abrir uma conta corrente” para ele movimentar recursos de propina por participação em obras estatais. Nesse momento o fluxo se inverteu: não foi mais a empresa que queria o político, foi o político que queria a empreiteira.

A prática restrita somente a um que outro partido se alastrou por outras legendas, preocupadas somente em angariar recursos para produzirem campanhas mais suntuosas, melhores até mesmo que as campanhas norte-americanas. Ou seja, sem dinheiro não existe eleição.

Se nota que somente uma pessoa relatada nos depoimentos foi procurada pela empreiteira, Pastor Everaldo (PSC). Candidato a presidente em 2014, ele estava em ascensão nas pesquisas, então a empreiteira resolveu dar uma ajuda com dinheiro depositado em caixa 2

Essa ajuda chegou ao montante em R$ 6 milhões de reais. Porém após os potenciais eleitores do Pastor migraram para a candidata Marina Silva (Rede, PSB na época) após morrer o candidato Eduardo Campos, companheiro de chapa. Assim a Odebrecht mudou de candidato e escolheu Aécio Neves (PSDB/MG), incentivando o Pastor a apoia-lo.

Só que a selva politiqueira não se resume a Lula, Aécio ou o Pastor, envolve 195 investigados, entre ex-presidentes, ministros de Estado, ministros de tribunais, deputados e senadores. Sem contar aqueles que não estão investigados mas figuram nas delações como elementos como ex-governadores, deputados estaduais, prefeitos, vereadores, entre outros.

Lobby

Antes sinônimo de entrada de hotel se tornou a prática de compra de políticos em troca de favorecimento na aprovação de leis. Nos EUA a prática não é considerada crime, mas há um limite para tal ação. Na Europa em certos países não e crime, mas não valeria a pena executar algo assim. Por aqui não é de hoje que existe.

Inclusive existe uma associação que tenta regulamentar a profissão (pasmem, é profissão). Recebeu em nossas paragens o nome de “relações governamentais” e na prática serve de bom trânsito que algumas pessoas tem com governos, políticos e partidos para obter contratos e/ou vender algum produto ou serviço para entes públicos.

De acordo com delação de Emílio Odebrecht a prática de propina para auxiliar políticos com a finalidade de conquistar obras ocorre há mais de 30 anos no Brasil. Seu filho Marcelo declarou a Justiça Federal que a ação nos anos 1980 acontecia no próprio canteiro de obras, que tecnicamente seriam superfaturadas, sendo a diferença paga ali mesmo para o político. No entanto com o passar dos anos foi necessária a profissionalização dos pagamentos ilícitos devido a contabilização ficar mais simples daquela realizada de meio direto. 

Assim se implementou um sistema próprio e um departamento próprio, chamado pelos procuradores especiais da Lava Jato no MPF de “departamento da propina”.

Não seria de estranhar a utilização de um sistema para este fim. Com volumes cada vez maiores de pagamentos irregulares, o formato antigo não poderia em hipótese alguma ter “êxito” como teve. 

De acordo com estimativas foram destinados para este fim R$ 500 milhões de reais, oriundos de obras superfaturadas, inviáveis, desviadas, entre outras formas de ilicitude. Para se ter uma ideia do tamanho do estrago que todo o esquema causou no site específico da Lava Jato no MPF tem o seguinte relato:

Estima-se que o volume de recursos desviados dos cofres da Petrobras, maior estatal do país, esteja na casa de bilhões de reais. Soma-se a isso a expressão econômica e política dos suspeitos de participar do esquema de corrupção que envolve a companhia. (Fonte) (grifo nosso)

Crise econômica

Afirmam economistas que a crise econômica foi devido a erros de condução da política macroeconômica, dentre elas o aumento significativo do gasto público. De fato não há evidências contundentes quanto ao aumento do gasto público e a contratação (para fins ilícitos) de empreiteiras. Porém o que se sabe é que este aumento no gasto público por parte dos governos petistas (Lula e Dilma) fez com que diminuíssem os investimentos por parte do governo federal para setores da economia, por sua vez diminuindo investimentos em toda a cadeia produtiva.

Entretanto algo que não se observa é que o rombo causado pela corrupção em nossa economia também levou nosso país para o buraco. A falta de ingerência dos políticos envolvidos, preocupados somente em salvaguardar seu mandato, tornou o Congresso Nacional um gigantesco balcão de negócios. Por lá eram realizadas reuniões não com o intuito de melhorar a condição de vidas das pessoas, mas sim com o objetivo de melhorar a condição de vida dos negócios representados por uma minoria.

Observa-se que a falta de ingerência em querer o melhor para as pessoas leva o país ao caos que vivemos: sem educação de qualidade, sem segurança pública, com hospitais sucateados, desemprego, etc. Em outras palavras se houvesse de fato vontade em construir um governo preocupado com a população boa parte dos problemas endêmicos de nosso país estariam solucionados. 

Thomas Sowell, economista e pensador político norte-americano tem um conceito sobre os políticos:

Ninguém entende de verdade a política até compreender que os políticos não estão tentando resolver os nossos problemas. Eles estão tentando resolver seus próprios problemas — dentre os quais ser eleito e reeleito são número 1 e número 2. O que quer que seja o número 3 está bem longe atrás.

Existe solução?

Se pode até imaginar que diante de uma selva densa como essa não poderemos ter uma luz no final dela. Porém existe uma clareira que amedronta qualquer político, seja ele inescrupuloso ou não: o voto. 

Felizmente no Brasil vivemos uma relativa democracia, onde a vontade da maioria nas urnas vence. Dizem que o reflexo dos políticos é o próprio eleitorado, e pode até ser. Durante anos nós brasileiros vivemos apáticos e distantes da política, acreditando que esta era feita somente para malandros. Conseguimos com isso deixar que ela fosse ocupada por malandros de verdade, mas não como o malandro folclórico das rodas de samba, mas ladrões que dia e noite roubavam sem que nada fizéssemos.

Aprendemos que a pressão das pessoas é capaz de mudar a ordem das coisas. Graças a população que lotou ruas e praças conseguimos pressionar os políticos para afastar um governo que institucionalizou a corrupção que já era praticada. Agora cabe a nos manifestarmos mais uma vez, não nas ruas ou praças, mas nas urnas para tirar cada um dos políticos envolvidos nesse e em outros esquemas de corrupção.

Não podemos ficar inertes e creditar ao tempo a solução de todos os males. Não podemos ficar somente deixando aos messias ou salvadores as soluções para os problemas de nosso país. Se queremos soluções precisamos buscá-las por iniciativa própria conversando bem proximamente de políticos e governantes.

Sei que é incômodo nos preocuparmos com mais esse tema, com tantas outras coisas que precisamos fazer diariamente, ter que cobrar políticos ficará — sem sombra de dúvida — em último plano. Mas é exatamente para não precisarmos lembrar os políticos que devemos exigir que realizem aquilo de necessário para tornar nossas cidades, estados e país melhores. Somente exigindo e participando da política que aqueles que adquirem mandatos ouviram vozes a gritar em seu subconsciente.

Com a combinação do voto e da vigilância poderemos mudar nosso Brasil e de uma vez por todas nos tornar no país do verdadeiro futuro.

porJeronimo Molina

A família debaixo da marquise

Mais um dia chuvoso na cidade serrana de Caxias do Sul. Algo normal para quem nasceu e se criou na segunda maior cidade gaúcha. Principalmente no início do outono ainda é relativamente quente para os padrões pós verão, porém chove com frequência. E junto com a chuva vem aquele vento gelado característico, como uma lembrança do inverno que se avizinha.

Como não disponho de carro — do contrário que imaginam — viajo de ônibus para lá e para cá. Não me importo, talvez por imposição da circunstância ou quem sabe por preguiça de dirigir ou ainda por estar em contato com histórias relatadas dentro dos coletivos semi lotados.

A chuva prosseguia constante e fina, caindo sobre as poucas pessoas que, corajosamente, saíram de suas casas no domingo matutino e vazio — também comum . Olhei a minha volta na “parada” de ônibus​ e havia somente três pessoas. Um gelo correu pela espinha. Preocupado com minha segurança fiquei a olhar enlouquecidamente para todos os lados. Não havia perigo nas pessoas ali dispostas, mas o instinto falou mais alto.

Para minha sorte a linha que esperava passou assim que olhei em volta. Uma mistura de alento e sublimação tomou conta. Retirei meu cartão eletrônico e subi as escadas cumprimentando o motorista do coletivo. Não me surpreendeu seu “bom dia” tão cinza quanto o dia, estava a trabalhar no domingo.

Entrei e sentei, como de costume, na janela para ver o cenário digno de filme distópico — no melhor estilo Walking Dead . Observei que ao invés de zumbis estavam amontoados embaixo de marquises diversos moradores de rua. Contei cinco em uma quadra. Nunca havia os observado com tanta clareza, quem sabe pela correria cotidiana.

Entretanto vi em uma marquise um pequeno grupo enrolados em cobertores, dormindo. Contei rapidamente enquanto o ônibus passava: um, dois, três. Eram três pessoas que estavam ali dormindo e quem sabe sonhando com uma cama confortável. Entretanto me chamou atenção que não eram todos adultos, havia uma criança. Aparentava uns seis ou sete anos, e deitada estava dormindo profundamente. Próximo dela estava um adulto homem, com aparência magra e a seu lado uma mulher, igualmente magra. Todos os três dormiam ali, em meio a cobertores sujos, em cima de colchões molhados.

Pensei em desembarcar e ir até a suposta família perguntar se precisavam de ajuda, mas a velocidade do ônibus — e em parte meu descompromisso com o fato — me impediram de agir. Entretanto aquela cena ficou fixa em minha mente por algumas horas, quem sabe por ser uma família, quem sabe por haver uma criança envolvida. Pensei que fosse devido a como viviam, mas não. Refletindo melhor sobre aquela cena vi o retrato da crise econômica, mesmo não sabendo a origem da família.

Posso parecer ingênuo em demasia, mas jamais um pai ou mãe iria querer ver seu filho dormindo no chão frio embaixo de uma marquise. Moveriam céu e terra para dar um pouco de conforto que fosse para sua prole. Assim, imagino, não haveria motivo maior para estar desalojada tal família que o desemprego, a falta de oportunidades, ou a fonte de recursos ter secado. Poderiam ser oriundos da drogadicção, que leva milhares de pessoas a habitar nas ruas e achacar os transeuntes que passam aqui ou acolá por um mero trocado em busca de mais um “baseado”. Mas não enxerguei esse perfil.

Naqueles poucos segundos, deitados sob a marquise vi uma história ser desenrolada, proveniente dos desencantos da vida, da exclusão social, da crise que surgiu e levou tantos a mendigar por um pedaço de pão. Não conheço pessoalmente alguém que depois de perder o emprego ter que se virar a própria sorte nas ruas da cidade, quem sabe desconheça por ter perdido o contato. Porém sei de diversas histórias, de pessoas que comem sanduíches por não ter recursos para colocar um prato de comida na mesa, que perderam móveis por não conseguir pagar as prestações, que choram por estar na penúria.

Não conheci pessoalmente a família embaixo da marquise, nem sei se voltarei a vê-la. Mas sei que o retrato dela reflete 13,5 milhões de histórias de tristeza e angústia e não apenas uma mera estatística.