Robôs são coisas ou coisas como pessoas?

porJeronimo Molina

Robôs são coisas ou coisas como pessoas?

Quando pensamos em geladeira, fogão, aspirador de pó estamos pensando em objetos. Tem caráter inanimado, não pertencem ao grupo de seres humanos, não vivem. Entretanto a evolução tecnológica faz com que mais e mais androides sejam semelhantes do ser humano, seja no físico, seja nos gestos, seja nas ações.

Cena de “Os Jetsons” com a sua robô doméstica. (Divulgação)

Assim quando pensamos em um robô não estamos nos referindo mais a tão conhecida Bety da animação Os Jetsons. Podemos até mesmo incorrer na premissa que sua similaridade com nossa própria espécie é tão incrível que podemos até mesmo duvidar que não são humanos. Com o advento das tecnologias de automação de conversação diversas empresas utilizam bots para se comunicar com seu público. No Brasil uma dessas empresas é o Banco Original onde tem um canal para tirar dúvidas diretamente pelo Facebook. Essa comparação acontece pois atuam como seres humanos, conversam com você como seres humanos e interagem com você da mesma forma que um atendente real, de carne e osso.

Então eis que surge um dilema: com tantas tecnologias de interação entre máquinas e humanos utilizando uma interface similar a este último, não podemos chamar robôs de pessoas?

Penso logo existo

Se pensarmos unicamente como René Descartes podemos deixar claro que a origem da existência é o pensamento. De acordo com a Wikipedia, Descartes, para chegar nessa conclusão estabeleceu “dois movimentos: demonstrar as razões que o levam à dúvida hiperbólica [um questionamento]; e demonstrar como a dúvida hiperbólica leva à certeza indubitável de que ele mesmo existe enquanto coisa que pensa [ser pensante]”.

Com essa premissa em mente podemos analisar que máquinas providas de lógica podem pensar, visto que elas podem sem sombra de dúvida resolver problemas, ou seja, questões. Assim uma máquina pode existir de fato como um ser pensante, não sendo propriamente um ser humano, mas sim um ser cibernético. Através de raciocínio lógico um ser cibernético pode incorrer em utilizar esse conceito para algo mais profundo como a construção de relacionamento cognitivo, porém distante do relacionamento emocional inerente a seres vivos.

Partindo disso podemos analisar os androides como seres pensantes e existentes, mas não inanimados ou desprovidos de capacidade cognitiva, em outras palavras, seres não vivos propriamente. Cria-se outra situação: podemos analisar o ser cibernético (androide) como um ser não orgânico, porém jamais “não vivo”, visto que este podem se movimentar, executar ações predeterminadas e ter consciência cognitiva (analisando situações-problema e determinando variáveis para resolvê-las).

Um seu livro Robôs do Amanhecer, o escrito e bioquímico russo Isaac Asimov descreve o ciúmes que o robô tinha ao ver sua “amada” se relacionando com outro homem, enquanto ele era tratado como um objeto por esta. Uma interface de sentimento tão genuinamente humano poderia ser ancorada facilmente em um ser cibernético, visto que basta uma dúvida para logo se manifestar um pensamento.

Não podemos creditar de maneira linear que um robô poderia realizar autoaprendizado exceto se condicionado fosse por seu programador original, porém com o advento da inteligência artificial um ser cibernético pode (em tese) combinar situações-problema a fim de obter um novo aparato lógico. Para solucionar situações-problema um ser cibernético pode utilizar argumentos já conhecidos para construir novos argumentos, como os seres humanos.

A sinergia em analise subjetiva (algo ainda não implementado em seres cibernéticos) é o futuro na análise cognitiva não orgânica. Essa análise está ligada as emoções: amor, ódio, raiva, felicidade, saudade, ciúmes, etc. Unificar a análise subjetiva a situações-problema no qual sejam passíveis de soluções é fundamental para creditar um aspecto “mais humano” aos seres cibernéticos.

Todavia um robô poderia utilizar aspectos não subjetivos para desencadear uma simulação de emoção, com a premissa unicamente básica de solucionar um problema. Exemplo prático seria no caso exposto de maneira romanceada por Asimov. Um robô poderia utilizar o argumento da “falta de cuidado” para simbolizar amor e através deste ver o cuidado com outrem como amor por outrem. Este por si só iria simular a emoção de ciúmes, tal qual um humano, mas distante do aspecto subjetivo.

A influência artificial

Nós, seres humanos, podemos ficar chocados quando vemos um outro ser humano sendo agredido. Se colocarmos que todo aquele que pensa é passível de compaixão (devido a sua função de raciocinar) estaríamos considerando computadores ou androides como seres relativamente propensos a compaixão.

Essa compaixão pelas máquinas é frequentemente abordada em livros ou histórias de ficção científica. No livro Eu, Robô de Isaac Asimov e no filme Exterminador do Futuro vemos que as personagens tem empatia com figuras que defendem seres humanos das agressões (sejam essas de humanos ou cibernéticos). Se existe compaixão de um ser humano para com um ser não orgânico, mas provido de “pensamento”, qual seria nossa reação ao ver androides sendo destruídos?

Filme de curta metragem criado pelo estúdio Dust, Rise mostra com certa clareza como seriam os potenciais seres cibernéticos e como poderia se instaurar um levante contra os humanos. A consideração dos seres humanos para com seres cibernéticos sem a proteção de argumentos lógicos capazes de impedir tal situação (sem a inserção dos seres cibernéticos dentro do espaço social) seriam as ferramentas necessárias para impedir uma situação limite.

No filme Ela, Theodore, personagem principal interpretada Joaquin Phoenix, se apaixona por sua assistente virtual, levando ao usuário ter ciúmes. Sua percepção era que ela é real, vindo a ser interpretada como um ser vivo, porém sem corpo físico. Sua destruição representava um tormento, pois para ele sua assistente era como uma pessoa.

Tal premissa também foi abordada na série Black Mirror no episódio Be Right Back onde uma mulher grávida de seu marido perde este em um acidente em uma van. Ela desesperada acaba utilizando um serviço que simula seu marido falecido por meio de suas conversas em redes sociais, chegando ao ponto de contratar um androide com a finalidade de substituí-lo. Um fato que acaba fazendo a mulher tomar tal decisão é a dor da perda de um ente querido, porém, devida a esta mesma dor ela resolve abandonar o androide trancando este no sótão, mas não o desliga por receio de perder seu marido novamente.

Existe uma influência artificial de apego aquilo que não é orgânico, seja de crianças por seus cães robô ou de adolescentes com Tamagoshi’s; somos seres humanos passivos de compaixão com alguém.  Acabamos por assimilar que um ser existe a partir do momento que este pensa, assim fica evidente que quando este deixa de pensar está fadado a morte.

Um fator comum em todas as cultura é o fim da existência como morte. Quando falamos em seres cibernéticos estamos falando de seres que pensam como nós, portanto ao não haver mais pensamento deixariam de assistir, ou seja, morreriam. Ao sofrer agressões por parte de outros seres, estes cibernéticos poderiam estar sofrendo (mesmo que não sentissem dor) e nossa intenção natural é sentir compaixão, visto que agressões podem levar a morte.

Em seu vídeo para apresentar o robô Atlas a empresa norte-americana Boston Dynamics empurrou sua criação ao solo para demonstrar que este conseguia assimilar a situação e levantar, tal qual um humano faria. Pode parecer estranho, mas a reação inicial de qualquer pessoa ao ver o vídeo é ficar espantado com a “agressão” sofrida pelo robô, mesmo esse não tendo capacidade cognitiva para solucionar situações-problema. Essa reação fica condicionada ao fato de que este age como um ser humano, ou seja, seria algo similar a nós mesmos. Tal “pancada” está no minuto 2:05 do vídeo.

Daqui a frente

Caracterizar o ser cibernético como um ser vivo não é a forma correta. Mas seria correto considerá-lo como um objeto? Ainda não temos a dimensão de avaliar como iremos nos relacionar com nossas próprias criaturas. Até o momento o ser humano domesticou outros seres e jamais havia criado um ser semelhante a si mas diferente ao mesmo tempo. Estamos tendo que lidar com uma situação que “deuses” tinham a se reportar na mitologia dos seres humanos. Como devemos fazê-lo não sabemos ainda.

Agora a realidade de robôs está cada vez mais dentro da sociedade e precisaremos destinar a estes seres um lugar. Se não existir um espaço para tais novos seres eles irão buscar seu espaço e fomentar um dos maiores medos da humanidade: a emancipação cibernética.

Sobre o Autor

Jeronimo Molina administrator

1 comentário até agora

MoemaPostado em9:49 pm - jul 7, 2017

A ficção científica é considerada uma área de “possibilidades”, uma vez que muitos de seus conceitos “utópicos” estão se tornando realidade. Em um mundo conectado, as máquinas estão sendo programadas para assumir uma condição quase “humana” em sua interação com as pessoas. Faço um adendo a esse excelente texto de alerta, comentando a série “Westworld” (2016), cuja história se passa em um futuro tecnologicamente avançado, onde há um parque temático que simula o ambiente do Velho Oeste. Este parque é povoado por androides que atendem aos desejos dos visitantes. A essência da história é que os visitantes podem fazer o que quiserem dentro do parque com os androides; sem regras, leis ou consequências. Mas há um porém… A “consciência” dos androides desperta e percebe sua própria existência.

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