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Silêncio não é apatia

Silêncio não é apatia

Há pouco mais de um ano todos os brasileiros estavam em frente a TV, não acompanhando jogos da seleção de futebol ou uma medalha olímpica. Estávamos todos assistindo atenciosamente a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff que ocorreu na Câmara dos Deputados. Eu também estava na praça central da cidade em frente a um telão acompanhando atentamente voto a voto dos deputados e comemorando com as mais de mil pessoas que também lá permaneciam.


Estávamos ali para comemorar a liberdade de um governo que oprimia cada um de nós, através de políticas econômicas erráticas, levando todo um país a beira do abismo. Não seria diferente protestarmos. Quando falta o necessário para um Povo, este irá sem sombra de dúvida para rua gritar contra.  Alguns ficavam espantados com a mobilização: várias cidades brasileiras, de pequenas até as capitais estavam em peso nas ruas, protestando. Panelas batiam, pessoas gritavam contra o governo. Em nossa cidade nunca se viu uma manifestação com 80 mil pessoas.


Mas tudo tem um fim. Não se pode viver diuturnamente nas ruas a gritar. As pessoas precisam trabalhar, estudar, criar, empreender, lidar com sua vida cotidiana. Os movimentos acabaram sucumbindo se esgueirando nos meandros da velha política, sendo abafados com distância natural que todos temos da política partidária ou o cansaço natural de seus líderes. E enfim os protestos a olhos vistos findaram.


No entanto a população não deixou de queixar-se da condução do governo federal. Perde direitos, o desemprego aumenta, a inflação corrói salários, parlamentares se aninham com o crime, presidente sofre denúncia. Seria motivo para ir às ruas novamente? Seria, sem sombra de dúvida. Porém reside a pergunta: por quê?


Não podemos pensar que movimentos de protesto nascem somente da indignação popular. José Sarney foi – antes de Michel Temer – o presidente com a maior impopularidade da história. Surgiram protestos pontuais em seu governo, mas nada que movimentou toda a massa. As pessoas estavam indignadas sim, mas aturdidas se perguntavam “para quê?”.


Hoje, diante de escândalos de corrupção envolvendo o atual presidente, parlamentares recebendo propina e acordos na calada da noite, caberia sim manifestações. E as fazemos. Temos as redes sociais que aliviam o protesto outrora realizado em casa ou nas mesas de bar. Dizemos ao mundo aquilo que nos aflige como cidadão. Existe o protesto que é silencioso, mas goteja constantemente na cabeça de cada um daqueles que maltratam cada um de nós a seguinte frase “o poder emana do Povo”.


Estaríamos apáticos? Não de maneira nenhuma. Talvez cansados de nada ter visto de diferente do mesmo de antes. Mas o gotejo permanece a cada postagem compartilhada, a cada comentário escrito, a cada texto publicado. E na cabeça dos maus feitores ecoa. Eles sabem que o poder do Povo não está somente na voz rouca de tanto gritar, mas nas suas ideias em meio ao silêncio. 


 

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