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A diferença de indivíduo e individualismo

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A diferença de indivíduo e individualismo

Porque o brasileiro se tornou individualista

Atacante brasileiro Gabigol caindo diante do individualismo da seleção. (Créditos: Lucas Figueiredo/MoWa Press)

A seleção brasileira de futebol masculino empatou mais uma partida nos Jogos do Rio. Algo que poderia ser normal, não fosse o adversário ser o Iraque.

Independente das qualidades do adversário incomum, o time brasileiro empatou com um gosto amargo de derrota. O gosto amargo da falha em esquecer que era um time.

Vivemos tempos complexos no país, tempos esses que nos levam a crer que mais vale viver só do que acompanhado, seja por quem for.

Essa sensação de viver só a despeito da companhia alheia nos torna frios, insensíveis, egoístas.

O brasileiro é um povo que não era acostumado com egoísmo gratuito. Qualquer problema no vizinho que fosse lá estavam várias pessoas para ajudar. O sofrimento do cotidiano era compartilhado com o amigo, conhecido, até o parceiro de boteco.

O assunto no ônibus de todo dia podia ser espinhoso, mas sempre terminava com um “tamo junto”, sinalizando que apesar dos pesares partilhavam da mesma necessidade básica que era viver.

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz” diz a música de Gonzaguinha, era entoado como mantra nacional. A felicidade, mesmo nas agruras, era o remédio para o egoísmo da dor.

A crise econômica que passamos levou a dor coletiva. Existe sempre no ar uma sensação de que algo ainda pior está por vir. Uma insegurança constante, inquietante, aterradora. Insegurança tal provocada pelo desemprego, pelo desengano, pelo abismo financeiro que fomos empurrados.

Se nos EUA há um sonho, nós vivíamos um sonho coletivo: tudo andava bem. O espírito brasileiro de compartilhar nem que fosse um pedaço de pão permanecia intacto. Mas tal qual o João previu na história bíblica, as vacas magras vieram e revelaram nossa pior face.

Famosa nos anos 1980 foi simbolo da sobrevivência do brasileiro: marcadora. (Google)

O brasileiro por anos foi um povo sofrido, que de tão sofrido teve a necessidade de se formar em pequenos núcleos de interesses mútuos.

Esses interesses convergiam graças a premissa da sobrevivência. No melhor estilo “eu ajudo se você me ajudar”, a solidariedade a moda da casa era um pretexto em tempos de cataclismos (naturais ou não). Sempre houve uma dicotomia social no Brasil, não me referindo a classes sociais, mas a castas de poder.Quão mais próximo do poder o cidadão estivesse, maior seria a benesse. Era a solidariedade de compadrio.

Não devemos pensar que o compadrio é restrito os corredores da política mesquinha, pelo contrário. Desde a “indicação” para um emprego na grande indústria até o desconto do mercado do bairro pela “amizade”, a solidariedade de compadrio formou o brasileiro.

É algo nato a nosso povo. Não porque queremos, mas porque precisamos. Sem essa solidariedade seria impossível a roda da vida girar. Precisaríamos de mais de duzentos anos para atingir os patamares de conforto e tecnologia que temos hoje.

E aí que o ponto na curva ficou fora da tangente.

O emprego abundante tornou o brasileiro mais propenso a esquecer dos outros. (Exame.com)

O crescimento econômico dos últimos anos fez que a necessidade da “solidariedade de faz de conta” ficasse mais escassa. Com isso as pessoas voltaram mais para si próprias, pouco importando se o outro precisava de algo.

A facilidade de obter tornou o brasileiro dono de si. Não havia mais porque usar da “indicação” ou da “amizade”, bastaria fazer por conta. Pedir, exigir, cobrar, se tornaram atividades comuns no Brasil dos anos 2000.

Quando o outro precisava ainda dávamos “uma mão” por ser o mínimo a se fazer, mesmo que o ato viesse acompanhado do dito “coitado, tá precisando”.

A frieza ficou mais latente, assim como o desconfiar d.o conhecido. Não tínhamos o interesse fortuito da colaboração. A vida caminhava bem, pujante. Foi quando o sonho se tornou pesadelo.

Com taxas de desemprego nas nuvens e falta de confiança, o brasileiro passou a se preocupar consigo. (Exame.com)

Ficamos mais soft, com relação as agruras do passado. Porém agimos agora de forma individualista: primeiro eu, depois o outro.

O individualismo “coletivo” já era parte de nossa cultura, mas devido a necessidade deixamos ele do lado de dentro da caixa preta de nossa sociedade.

Furar fila e passar na frente, colar na prova, corromper o policial na blitz, “derrubar” o colega no trabalho, ser indiferente ao mendigo pedindo esmola. Tudo isso nós fazíamos, ainda antes da bonança. Entretanto, inconscientemente ajudamos para conseguir benesse futura.

Agora com a crise fica improvável conseguir benesse futura, tendo que cada um cuidar de si primeiro.

Diferente das castas de poder do passado recente, agora ninguém detém mais poder, todos são iguais: sobreviventes cotidianos. Por isso pensamos em nosso bem-estar pessoal primeiro.

Observe um ônibus lotado com uma senhora idosa precisando de um assento, quem levanta? Normalmente ninguém. Há quem diga que é uma vantagem imerecida a anciã receber lugar para ela suportar as dores da idade.

Estacionar próximo a um estabelecimento mesmo que proibido porque é mais perto, fechar a porta do prédio na cara do vizinho, não dizer ao amigo desempregado a vaga do jornal para você mandar currículo…

Tempos atrás um ex-colega de trabalho disse, em tom irônico “boi lerdo bebe água suja”. Hoje vivemos tempos de correr por nós, os outros que se “danem”.

Mas sempre existe um resultado do individualismo. Diferente de preconizar a preocupação própria para ascensão pessoal, ou seja, o cuidado individual, o individualismo leva a falência ética e moral.

Não nos preocupamos com o impacto que possam gerar nossas atitudes, simplesmente pensando na nossa própria vontade.

Ayn Rand: autora do livro A Revolta de Atlas (Wikipedia)

Ayn Rand, escritora e filósofa mostra em seu livro A Revolta de Altas a diferença entre ser indivíduo e ser individualista. Seu protagonista é John Galt que se doa em prol dos outros, e seu antagonista é o Presidente norte-americano, que se preocupa somente com o poder. Ser individualista é preocupar-se somente com o poder para si, ou ter para si.

A corrupção endêmica é resultado do individualismo. Pouco importa se as filas nos hospitais são crescentes, pouco importa se as pessoas não tem o que comer, pouco importa se os jovens se perdem no caminho. Para o individualista social o que importa é seu único bem estar.

Assim o individualista é o sangue suga da liberdade plena, com sua sede pelo poder para si deturpa a necessidade de compartilhar com os outros o pouco, desestimulando a concorrência. “De que adianta competir se somente poucos ganham”, é a pergunta que se fazem milhares de pessoas interessadas em abrir um negócio.

O reflexo do individualismo a moda brasileira fica transparente quando falamos de esportes coletivos. Não é somente futebol, mas basquete, em termo vôlei, entre outros, demonstram que ser solitário não leva a vitória. Muito pelo contrário.

A seleção brasileira masculina de futebol provou mais uma vez aquilo que a sociedade vive todos os dias: o individualismo. Estar preocupado consigo do que com o todo é fruto do descaminho que tomamos a crer que o poder emana de um ente onipresente e superpoderoso que é o Estado. Este tomou para si as prerrogativas da necessidade de caridade, relegando para o Povo a preocupação pessoal. Poderia ser algo excelente, se não fosse pelo fator custo.

Com custo elevado o Estado, que em seu “contrato social” distribuiu benesses para diversos brasileiros, se viu obrigado a puxar o freio de mão. Tal qual o pai ou mãe tira o “doce da boca da criança”, o governo isso fez a cortar programas importantes. Foi como um choque de realidade para a grande maioria das pessoas.

Desorientadas as pessoas que perderam seu “doce” foram obrigadas a conquistar seu espaço, mas diferente do passado começaram a pensar em si. O medo de perder o pouco que tem ficou maior.

Jogadora Marta da seleção brasileira feminina de futebol na Olimpíada de 2016. (Crédito desconhecido)

Quando falamos em equipe falamos todos imbuídos em um interesse comum, trabalhando juntos para atingir um objetivo unificado. Nota-se que diante de diversos objetivos individuais há uma conversão de objetivos para um único sentido. Essa conversão, quando bem sucedida, termina com a eficácia nos propósitos.

Usando a seleção brasileira masculina de futebol como exemplo vemos que a convergência de propósitos não ocorre. Não existe coesão para atingir um objetivo único. São diversos objetivos individualizados que são colocados na tentativa de atingir algo conjunto. Do contrário a seleção brasileira feminina de futebol é o oposto: os objetivos individuais são convergidos para um objetivo maior.

Sem coesão de objetivos, sem pensarmos de maneira conjunta, sem acreditarmos que precisamos também do próximo não iremos muito junto. Há a necessidade urgente de deixarmos a solidariedade de compadrio e começar a solidariedade de verdade, onde o esforço individual é sempre recompensado com a vitória coletiva.

Precisamos ser menos Neymar e mais Marta.

 

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