Caxias do Sul, RS
54 | 981001395
contato@jeronimo.co

A verdade por trás da máscara e da intolerância

#RSdeNovoGrande

A verdade por trás da máscara e da intolerância

Existem intolerâncias que não podem ser medidas ou combatidas a não ser por nós mesmos

Normalmente quando saio de casa no verão utilizo uma proteção para não ficar com o sol diretamente sobre mim. Um chapéu, um boné, as vezes até mesmo uma pasta servem para eliminar o calor escaldante. Quando uso meu chapéu estilo panamá não faltam olhos para me fitar. Poderiam ser olhos de aprovação de meu estilo ou quem sabe olhos para interpretar o motivo da extravagância. Porém infelizmente esses olhares mostram espanto e desdém. Me sinto mal a provocar tal espanto, mas não foi a única vez que senti isso.

Estudei alguns anos em escola pública e sempre acabava indo para lá e para cá com o uniforme da escola. Certo dia fui buscar meu irmão mais novo em outra escola, particular. Nem havia notado que ainda permanecia com o uniforme de minha escola. Chegando até a porta da escola solicitei para entrar na mesma. Fui impedido de entrar na escola graças ao meu uniforme que segundo a recepcionista “poderia causar problemas com os outros pais”.

São esses pequenos preconceitos que não sentimos diariamente. Muito se fala em racismo, agora pouco se fala nos preconceitos sociais, aqueles que doem nas pessoas por aquilo que elas tem. Por sorte as grandes cidades cosmopolitas não sentem em grande medida este tipo de preconceito, acreditam que cada cidadão tem seu lugar ao sol. Se a pessoa aparenta não ter grandes posses não significa que irá ficar devendo.

Já em pequenas cidades o preconceito racial é amplificado com o preconceito social. As pessoas são rotuladas pelo seu status social e financeiro, sendo agraciadas por aparentar que dispõem de dinheiro. Faça um pequeno teste: entre em uma loja mais chique apenas de chinelo e camiseta velha; o atendimento será diferente de quem veste algo mais alinhado. Só existe um pequeno detalhe, ninguém julga que isto é um preconceito.

A intolerância que não vemos

Não enxergamos intolerância em nossas pequenas rejeições, muito pelo contrário. Observe quando um grupo de jovens da periferia caminha pela rua e veja a reação das pessoas, estas automaticamente saem de próximos deles. Isto está arraigado em nosso conceito de proteção social. Fica latente que precisamos nos relacionar com pessoas de nosso meio social e evitar pessoas que não participam de nosso vínculo. Isso cria uma forma de acepção de público, rotulando aqueles que são melhores e piores que nós.

Essa diferenciação de níveis entre as pessoas criam situações onde certos são dignos de confiança e outros não, mesmo que não existam fatores ou elementos que impeçam a confiança. Podemos colocar neste mesmo cesto aqueles que rotulam as pessoas por sua herança familiar, cor da pele, linguajar, idioma ou povo. Incorremos em erro igual aos de líderes xenofóbicos, que por temerem as diferenças alheias empurram os considerados “diferentes” para fora de seu meio. Criam uma linha divisória entre os aceitos socialmente e os rejeitados.

Alex Atala, um conceituado chef que não segue padrões. (Divulgação/Netflix)

Somente os rejeitados pela sociedade se tornam novamente aceitos quando despontam acima da média. Assim se tornam influentes, dão razão ao apelido de excêntricos, quebrando barreiras. Enquanto outros tantos são relegados ao esquecimento, aos empurrões da sociedade marginalizadora. Alex Atala é exemplo, seu passado punk e seu uso de drogas fizeram ele se tornar um rejeitado pela sociedade. Depois de muitos anos e bem conceituado na gastronomia ficou símbolo da cultura de excentricidades.

Vivemos em uma sociedade segregadora, que rotula as pessoas por seus atributos financeiros e não por sua capacidade intelectual. Graças a essa segregação vemos imigrantes africanos serem enxotados quando tentam ganhar a vida nas ruas das cidades, ou quando vemos pessoas do Nordeste do país migrando para regiões mais ao sul em busca de vida melhor e encontrando preconceito devido ao sotaque.

Precisamos tirar a máscara e realizar uma auto reflexão. Precisamos observar que a mesma medida que rotulamos o próximo pode ser usada para nos rotular também. Que ao estarmos em outro país ou estado somos tão migrantes quanto aqueles que chegaram aqui. E podemos sofrer na pele por sermos diferentes.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *