Aquilo que esquecemos: amar

porJeronimo Molina

Aquilo que esquecemos: amar

Normalmente não escrevo sobre cinema, porque acredito que cada pessoa tem uma visão particular sobre cada filme que assiste. De toda forma não pude deixar o filme Ela (Her – 2014) alheio a um comentário, não sobre o filme em si, mas sua mensagem em particular.

O filme trata sobre um rapaz, recém separado que acaba encontrando uma forma de amar com um assistente pessoal, no melhor estilo Google Now. Nada estranho, até porque as pessoas estão cada vez mais se isolando em suas próprias casas e acabando mais se relacionando virtualmente do que pessoalmente. A questão no filme é que o personagem principal acaba se apaixonando pela assistente virtual.

Hoje vivemos tempos onde os relacionamentos são marcados por um status no Facebook ou uma frase de impacto no Twitter. Não dispomos de tempo para descobrir o que a outra pessoa deseja, o que ela quer, o que ela sente. Simplesmente acabamos vivendo e conhecendo pessoas para suprir nossas carências existenciais momentâneas: sexo, prazer, conversas, etc.

Não digo que a falta de compromisso levou a este estágio, onde precisamos nos relacionar com outros humanos por mera convenção social – ou porque fomos ensinados por nossos pais – mas o tempo parece estar se esgotando a cada dia. Não temos mais tempo para aguardar e descobrir o outro como um livro que lemos a cada página. Precisamos conhecer e agradar, e de forma mais rápida que um download descartar ou não uma potencial chance de amar alguém de verdade.

Pode parecer piegas, mas o amor é sublime, algo que não sente ciúmes, não sente inveja, não se vangloria e não humilha. O fato de amar alguém não fica preso as limitações do que será no futuro, simplesmente constrói um mundo onde se conversa, se planeja, se sente, e se pensa um no outro de forma pura e ingênua.

A forma como vivemos hoje não permite que sejamos ingênuos; devemos ser fortes, não podemos recuar jamais, e na melhor das hipóteses acabamos por si só acreditando que estamos em uma batalha entre um e o outro, deixando a pureza e a leveza deste sentimento tão nobre que é amar.

O amor perfeito, onde não haverão problemas não existe. Muito pelo contrário, ocorrem diversos problemas. De toda forma quando encontramos um pessoa para dividir nossos problemas não dispomos de tempo e energia para querer ouvir esta pessoa. Ouvimos a nós mesmos.

Nesse emaranhado de falta de tempo, ouvindo nossos próprios pensamos e verdades, acabamos por vezes nos frustrando com as pessoas, e nos recolhemos em nossa zona de conforto virtual, com amizades virtuais, amores virtuais. E mesmo estando em meio a milhares de pessoas todos os dias, as relações humanas se corroem diariamente. Não significa que não queremos amar alguém, mas acabamos amando mais a nós mesmos do que o outro.

Precisamos nos despojar de “amores” antigos, sentimentos alheios, e principalmente de nossa soberba em querer sermos amados. Quando amarmos os outros antes de ouvirmos nossa própria voz, iremos sim sentir os efeitos do verdadeiro amor. Talvez até mesmo iremos sofrer por perder este amor, mas então sim teremos realmente amado alguém.

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