Preconceito escondido por meio de culto

porJeronimo Molina

Preconceito escondido por meio de culto

Agressão sofrida por pastor demonstra o discurso preconceituoso dentro de igrejas evangélicas

Altar em terreiro de Umbanda. (Jeronimo Molina/deRossi Media)

Existem inúmeras formas de acontecer preconceito. Uma palavra mal falada, ou um gesto levam ao receptor da mensagem um sinal que possa refletir segmentação. Um exemplo ocorreu com o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago, que foi agredido por um membro de sua igreja. Em relato a polícia, o membro disse que ouviu do pastor que iria ser crucificado. Apesar da agressão os cultos ficaram mais lotados ainda, levando pessoas ao fanatismo religioso ao crerem que a camisa de Santiago poderia “curar” pessoas.

Esse fanatismo somado ao preconceito leva a situações como as relatadas por Ademir Antônio dos Santos Neves, 57, conhecido como Pai Ademir de Oxum.

Colocaram duas garrafas quebradas na entrada de casa para furar os pneus do carro quando eu fosse sair — disse o sacerdote do Templo Africano Oxum e Ogum Reino dos Orixás.

Pai Ademir de Oxum (Divulgação/Facebook)

Praticante do batuque (culto religioso afro realizado somente no Rio Grande do Sul) e candomblé , Pai Ademir afirma que o preconceito ocorreu na porta de sua casa — local que também serve de terreiro — diversas vezes. Apesar de estar na crença por praticamente toda a vida notou um crescimento nos últimos tempos, apesar da quantidade de terreiros espalhados pela cidade.

Comenta que o preconceito é maior devido aos sacrifícios de animais que ocorrem, pois muitos templos realizam esses de forma indiscriminada.

Em cada encruzilhada vemos um axé (despacho). Não é na rua que se fazem essas coisas. Existe o mato.

Outro fator segundo o religioso é o uso desmedido da religião para fins próprios. De acordo com Pai Ademir diversos líderes de terreiros não estão preparados para “darem consultas”, fazendo assim um gigante mercantilismo do “jogo de búzios”. Relata que em alguns casos pessoas perdem muito dinheiro e não recebem as respostas necessárias.

Atuando como pai de santo há muitos anos, ele — que incorpora como médium o Exu Capa Preta — diz que recebe muitos ex-pastores em seu terreiro. Argumenta que sua religião recebe todos, não fazendo distinção de pessoas com base nas escolhas da vida. No entanto enfatiza que seus “filhos” — como denomina os membros de seu templo — são todos muito bem selecionados.

Aqui só tem gente selecionada — reforça.

Sua experiência com o preconceito vai além da questão religiosa. Lembra que certa vez ao necessitar comprar um produto em uma loja da cidade não conseguiu pois não teve sua profissão considerada.

Quando disse que era pai de santo ficaram de risadas e se cutucando. Daí não consegui comprar nada.

Não é somente em lojas que o preconceito cresce. Uma das maiores denominações evangélicas a Igreja Universal do Reino de Deus no início de 2015 criou um grupo denominado como Gladiadores do Altar. Este grupo tem por objetivo criar uma ordem interna na igreja para preparar jovens a serem pastores com inclinações ao militarismo. Após diversas críticas a Universal aparentemente desistiu da criação do grupo, porém ainda acontecem em seus cultos referências as religiões de matriz africana e homossexuais de maneira preconceituosa. Fomos até a sede da igreja Universal em Caxias do Sul para saber mais a respeito do pensamento da igreja quanto ao preconceito, mas nos informaram que os pastores não poderiam dar declarações ou entrevistas.

Por parte dos alguns evangélicos

Porém nem todos pastores concordam com as práticas da igreja Universal. David Scherdien Santos que é pastor da Igreja Batista da Comunhão e presidente do Conselho das Igrejas Evangélicas de Caxias do Sul explica que existem diversas denominações dentre os evangélicos.

Pastor David Santos (Divulgação/Facebook)

De acordo com Santos existem igrejas protestantes, pentecostais e neopentecostais, tendo neste último grupo igrejas como Universal, Mundial do Poder de Deus e Internacional da Graça.

Não existe uma forma única de pensamento dentro dos evangélicos. Não é igual aos católicos ou umbandistas. Existe uma linha média que nos une, mas existem muitas diferenças — argumenta.

Santos atribui o preconceito por parte de algumas denominações evangélicas a falta de conhecimento. Salienta que existem pastores com apenas o Ensino Fundamental, muitas vezes sendo analfabetos funcionais. Isso faz com que exista um distanciamento do entendimento em agregar pessoas com perfis diferentes nas igrejas.

Aqui em nossa comunidade temos homossexuais, transsexuais. Não impedimos ninguém de participar. Isso porque a mudança ocorre em Jesus.

Para o pastor batista existe um sincretismo entre as igrejas neopentecostais e os cultos africanos. Essa relação está na condição de trabalhos feitos em terreiros serem ‘desfeitos’ em igrejas como Universal ou Mundial. Lembra que um “trabalho feito com uma galinha em um terreiro é desfeito com sal grosso em um culto” nessas igrejas.

Divisões nos evangélicos fomentam preconceito

Na visão do pastor as igrejas evangélicas também sofrem preconceito graças a essas divisões internas. Essas divisões elevam o fanatismo religioso e mais preconceito para com as minorias. Ainda denuncia dizendo que muitas igrejas trabalham com o que chama de “cobertura espiritual”.

Essa cobertura segundo ele funciona semelhante a um sistema de pirâmide onde as igrejas elencam 12 pessoas para coordenarem uma célula em referência aos discípulos de Jesus. Cada um deste grupo tem por objetivo elencar outras 12 pessoas e assim sucessivamente. Cada elencado coordena uma célula e obtém o preceito de líder espiritual.

Ainda segundo o pastor, aquele que faz parte das células delega suas decisões de vida para o coordenador da mesma, a essa delegação se dá o nome de cobertura espiritual. Seria uma forma de impedir o livre arbítrio das pessoas pertencentes a estas células, tornando as mesmas susceptíveis as ordens do coordenador, em outras palavras, a terceirização da fé.

Mesmo enfatizando que a igreja batista crê no casamento heterossexual, na família e nos dogmas cristãos contidos no Novo Testamento da Bíblia, ainda permite que pessoas com outras crenças frequentem seu templo, sem preconceitos. Porém reforça que as pessoas seriam alteradas aos poucos pela influência de Jesus.

Pode ir no terreiro de Umbanda um dia e noutro dia vir aqui em nossa comunidade. Mas aos poucos a pessoa irá se transformar pela vida de Jesus.

Onde está o preconceito

Sabemos que o preconceito religioso é muito antigo. Romanos perseguiam cristãos antes da conversão ao cristianismo de Constantino, logo depois a Igreja Católica perseguiu pagãos, bruxas e médiuns levando eles a fogueira, e agora vemos umbandistas sendo perseguidos por evangélicos radicais.

Não podemos estipular uma origem para o preconceito, mas todos podemos dizer que grande parte dele se origina pela falta de enxergar o lado do outro. Normalmente nós pensamos somente em nossas mazelas pessoais e esquecemos que existe do outro lado uma pessoa com mazelas iguais ou piores que as nossas.

Na ânsia de buscar por respostas aos nossos problemas acabamos por vezes deixando nas mãos de sacerdotes nossas próprias decisões, levando a potencializar nossas diferenças. Deixamos de lado o livre arbítrio e começamos a perseguir nossos próprios fantasmas através de grupos diferentes.

Infelizmente existe o preconceito religioso porque não enxergamos que há mais semelhanças que diferenças entre todos nós, sendo a principal delas é que somos antes de tudo humanos.


Colaborou com essa matéria: Roberta Krewer Molina.

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