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Quando o celular quebra, porque sentimos raiva?

#RSdeNovoGrande

Quando o celular quebra, porque sentimos raiva?

O valor de um celular no Brasil custa muito mais salário do que em outros países

Então você compra seu celular novinho em folha. Depois de pesquisar um bom bocado, encontra aquele modelo que junta preço baixo e benefícios. Passados alguns dias seu celular cai no chão e fica com a tela toda quebrada. Daí vem a raiva.

Relatos como esse são comuns em nosso dia a dia. Porém escondem uma realidade que acontece também com outros produtos e serviços no Brasil: o preço proporcional ao salário.

Hoje um smartphone básico custa em média R$ 750,00 reais. Isso é muito comparado ao salário mínimo, que em tese serve de piso para qualquer trabalhador. Em outras palavras, em celular simples 85% do salário mínimo. Se colocarmos em voga o preço de um celular intermediário, que está entre R$ 1.200,00 e R$ 1.500,00 daí fica impraticável uma pessoa que ganha um salário mínimo comprar.

Em outras palavras, um celular, bem simples e comum, custa mais caro para as faixas de renda mais pobres. A participação que um celular intermediário tem para quem ganha mais é infinitamente menor.

Celulares antigos ainda são utilizados graças ao preço dos novos (Crédito: desconhecido)

Isso torna o acesso a novas tecnologias distante das camadas mais pobres. Cria a longo prazo analfabetos funcionais, que não assimilam a tecnologia porque não tem acesso à ela.

A distância da tecnologia por parte das camadas mais pobres da população faz com que a inovação diminua, gerando até mesmo maior desemprego e levando o Brasil a condição colonial de oferecer commodities (café, açúcar, arroz, etc) no mercado internacional.

“A culpa é dos empresários!”, diz o incauto. Calma não é bem assim. Hoje para atrair alta tecnologia presente dentro de smartphones, computadores, até mesmo na televisão de sua sala, é necessário investimento em pesquisa. E para piorar temos o pior investimento em pesquisa de alta tecnologia do mundo.

Segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações no ano de 2013 (último ano contabilizado) foram colocados a disposição para o desenvolvimento de novas tecnologias (P&D), através do CNPq, em torno de R$ 1,85 bilhões de reais. No site do próprio CNPq, em uma pesquisa rápida verifica-se que a maioria dos projetos de pesquisa não envolvem desenvolvimento na área de alta tecnologia (engenharia eletrônica). Em comparação, os EUA, investe em pesquisa em torno de US$ 300 bilhões de dólares anualmente em pesquisa.

A falta de investimentos não é o único entrave que torna o desenvolvimento de alta tecnologia baixa. A burocracia é o segundo fator. Enquanto países como China, Índia, EUA e alguns da Europa não atrapalham a criação de produtos com base em tecnologia de ponta, no Brasil existem diversas leis que impedem a criação de novos produtos. Essas leis são chamadas de barreiras não tarifárias.

Xiaomi desistiu do mercado brasileiro devido a burocracia (Crédito: divulgação/Xiaomi)

Um exemplo clássico foi no final de 2011, quando a Anatel determinou a certificação obrigatória de produtos com transmissão de rádio-frequência. Em um primeiro momento todos gostaram, até mesmo porque haviam no mercado diversos aparelhos com origem duvidosa. Porém no longo prazo inviabilizou a importação de celulares da China e Índia, diminuindo a oferta de marcas e com isso encarecendo o produto ao consumidor final.

Para se ter uma ideia, hoje no Brasil existem apenas 29 marcas de celulares, porém nacionais apenas 5 marcas, segundo o site Teleco. Há a perspectiva de em um período breve os aparelhos serem homologados na Anatel e com isso terem seu número de série cadastrados pela agência. Com isso além de pesquisar, inovar, produzir, ainda haverá esse custo a mais em cadastrar lote por lote no sistema de registro.

Mas a falta em investimento e a burocracia não se restringe a alta tecnologia. A produção de veículos também detém uma série de leis e normas a serem seguidas, e muitas delas não tem haver com segurança.

De acordo com o site da consultoria Cetra, para homologação veicular existem mais de cinco órgãos para homologar um veículo para trafegar. Além disso, a legislação que cuida do segmento é extensa e dispersa em diversos locais, com resoluções no Denatran, Contran, e outras agências reguladoras.

Para passar por todas essas etapas na construção de um produto novo, o custo se torna elevado, fazendo com que o preço final seja maior. Por este motivo um carro que nos EUA custa em torno de 2% do salário mensal, no Brasil custa em torno de 200% mais.

Para minimizar o impacto no salário mensal, o brasileiro recorre ao parcelamento. Prática que somente acontece por aqui, o parcelamento deixa o valor do bem dentro do orçamento, tornando viável a aquisição. O que ninguém nota que dentro do parcelamento há juros, e estes por aqui são bem salgados.

Juros no cartão chegam a 447% em Junho de 2016 (Fonte: Bancen) (Crédito: Google)

De acordo com o site de notícias econômicas, Infomoney, em 2012, o brasileiro era o que mais pagava juros na América Latina. Enquanto que no Brasil a taxa de cartão de crédito era na ordem de 320% ao ano, na Argentina essa taxa não passava de 50% anuais. Mas não pense que isso mudou. Segundo o jornal Folha de S. Paulo a taxa de juros no cartão de crédito hoje no Brasil chegou a incríveis 447% anuais em Junho.

Esse custo de juros na compra de algum bem faz também que o produto se torne mais caro para o consumidor final. Ou seja, deixa as classes mais pobres longe dos produtos de maior valor agregado ou alta tecnologia.

“Então a culpa é dos banqueiros!”, diz novamente o desavisado. Na verdade não. Somente no Brasil existe o parcelamento de compras. Essa prática começou na época da hiperinflação, com baixo poder de compra, as pessoas não conseguiam consumir produtos com valor agregado (bens de consumo). E detalhe, não ocorreu por meio de pressão do mercado, mas sim por força do Estado.

Para incentivar a compra de casa própria, o governo na década de 1970 criou o Banco Nacional da Habitação, BNH, que tinha por objetivo parcelar em longas prestações a compra de um cantinho. A prática se estendeu para o comércio, criando assim a palavra crediário. De toda forma, o crediário nada mais era que o financiamento da compra, tal qual ocorria com os imóveis na época.

O financiamento de bens de consumo (celulares, geladeira, fogão, etc) é algo irreal em outros mercados. Não existe modalidade assim em outros países desenvolvidos. O cartão de crédito por exemplo funciona de maneira diferente nos EUA, sendo o juro cobrado pelo valor que você utilizou do cartão e não pelo que deixou de pagar. Além disso, o cartão de crédito lá fora não parcela compras.

A soma de baixo poder de compra, alto custo de investimento, poucos recursos voltados para pesquisa, burocracia elevada e juros estratosféricos faz com que vejamos por aí mais celulares com telas quebradas. Enquanto para outros mercados celular é algo barato e simples, por aqui é item de luxo.

Se a regulamentação abusiva, e a falta de investimentos em pesquisa e os juros continuarem elevando correremos o risco de somente vermos produtos com alta tecnologia na TV, distante da nossa realidade. Ou quem sabe nos comunicando com pombos-correio e andando de charrete, antes que regulem, cobrem…

 

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