Quem seria o famoso personagem “cidadão de bem”

porJeronimo Molina

Quem seria o famoso personagem “cidadão de bem”

Muitos falam sobre ser um cidadão de bem, mas será que existe?

Resolvi realizar no meu perfil pessoal de Facebook uma enquete sobre quem as pessoas votariam para presidente em 2018. Diversos comentaram sobre o tema, sendo que ficou em primeiro lugar o deputado federal Jair Messias Bolsonaro (PSC/RJ). Opiniões a parte os “votos” no deputado polêmico foram o menor dos males comparados aos comentários que surgiram após a primeira divergência de pensamento.

Uma usuária indignada com o apoio maciço ao deputado comentou na postagem:

Mulheres falando que votariam em Bolsonaro é de dar pena. Aproveitem o acesso a Internet e se informem, afinal nem a mãe dele votaria nele, segundo ela mesma.

Era somente aquilo que faltava para uma simples enquete se tornar uma batalha sem fim de defesa do pretenso candidato a presidente. Alguns mais contundentes — mas educados — outros simplesmente ignorando qualquer regra de etiqueta. Entre meio de todos os comentários lia-se pessoas falando em cidadãos de bem.

Me perguntei quem seriam os pretensos cidadãos de bem e não encontrei nenhum texto ou conclusão. Fui então e busquei o conceito de cidadão. Para a Wikipedia cidadão é uma pessoa que pratica a cidadania, essa por sua vez “são os direitos e deveres de um indivíduo em um Estado”. No Brasil uma pessoa é cidadã quando tem direitos (vida, segurança pessoal, etc) e deveres (votar, cumprir serviço militar obrigatório).

Dessa forma um cidadão é quem cumpre com seus deveres e participa de seus direitos de forma única e não fragmentada, onde se abstém de certos deveres e abdica de certos direitos. Não haveria neste conceito básico de cidadão a inserção da terminologia “de bem”. Parti no devaneio de conceituar o que seria bondade e esbarrei na filosofia.

Esta denomina como bondade a ausência completa de maldade, onde “o bem fomenta o desejável a partir da empatia (a capacidade de sentir aquilo que outra pessoa possa estar a sentir)”, como diz no site Conceito De.Ter empatia é o mínimo que uma pessoa pode ter para ser considerado bom e praticar o bem.

Não há maneira de unificar os dois significados sob a mesma linha até porque são atributos não complementares. No entanto alguns insistem em aglutinar um ao outro como se fossem parentes próximos. Assim surge o famoso “cidadão de bem”, aquele que cumpre seus deveres cívicos, utiliza seus direitos sociais e promulga a bondade sempre vendo o olhar do próximo como régua para suas ações. Quase um ser oriundo da mitologia.

Supremo e onipotente o cidadão de bem apregoa aquilo que julga por ser bom, medindo através de seu ângulo de mundo o que serve ao próximo para este ser bom tal qual ele. Assim o espelho que poderia servir como régua para a construção de uma civilização mais justa é colocado sob a égide do mensageiro e não do receptor.

Assim figuras como de Bolsonaro ou seu correligionário deputado federal Marco Feliciano (PSC/SP) denominam este tal cidadão de bem como aquele que defende valores e tradições, além de imputar sua medida — na marra — àqueles que contrariam suas premissas.

Um conceito mais profundo sobre cidadão de bem pode ser retirado do site Fale ao Mundo, escrito por Suzane Frutuoso:

Por exemplo, a princípio, é de bem quem paga impostos, é honesto nas suas relações pessoais e profissionais, não desvia dinheiro, não leva vantagem. Mas e se, essa mesma pessoa, que a primeira vista parece tão correta, espanca a mulher em casa?

Sempre colocamos o conceito de cidadão de bem aos olhos vistos, ou seja, de forma ética. Quando enxergamos suas atitudes bondosas e corretas podemos mencionar e mensurar seu nível de benignidade diante da sociedade. Mas ao estar em casa, no seu canto secreto, suas atitudes não podendo ser medidas, se perde a moral e toda a pregação “moralista” de defesa tradicional.

Não é de hoje que pastores evangélicos, padres ortodoxos, políticos autoritários foram pegos literalmente com “a boca na botija”. Exemplos clássicos (que está virando lenda) foram do bispo Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus, quando na década de 1990 ensinou seus discípulos a conseguir mais dinheiro de fiéis e, do ex-senador Demóstenes Torres, que depois de pedir prisão para corruptos em plenário foi preso por desvio de recursos públicos.

Há quem diga que Bolsonaro e Feliciano são praticamente imaculados, que nunca se usufruíram das benesses do poder. Porém ninguém que defenda tais senhores observa que ambos estão como deputados há muitos anos. O primeiro está em seu sexto mandato como deputado federal e também em seu sexto partido. Já o segundo foi acusado de abuso sexual por uma ex-militante do PSC e pediu a senha do cartão de crédito dado por um fiel de sua igreja como pagamento de dízimo.

De toda forma ninguém pode ser bondoso o tempo todo, até mesmo porque somos humanos. Alguém que consiga tal façanha ou seria inumano ou fruto de criação transcendental. Temos raiva, ódio, rancor, mágoa, tristeza, avareza, egoísmo e por aí vai. Imputar a grandeza de ser inequívoco em suas atitudes é estar caminhando para o mesmo erro que levou alemães escolherem Hitler como chanceler em 1933 ou venezuelanos que votaram em Hugo Chavez no íncio dos anos 2000.

Não existe o tão famoso cidadão de bem. Existem cidadãos que devem ser livres para realizar escolhas e colher os frutos de seus atos. Quem se autodenomina como cidadão de bem ou procura tais pelas ruas deve antes de tudo refletir: até onde sou bondoso para ser alguém digno de santidade?

Sobre o Autor

Jeronimo Molina administrator

Deixe uma resposta